Nunca tinha ouvido falar sobre narcisismo no contexto de um relacionamento afetivo, apesar de ser uma pessoa bem informada, analisada, com muitos anos de relacionamentos estáveis. E foi um choque para mim. Só semanas depois do meu sumiço, quando precisei de um psiquiatra, tamanho o sofrimento físico e psíquico, descobri que havia sido vítima de uma pessoa com sinais aparentes desse transtorno de personalidade sem cura (em inglês, NPD, Narcissistic Personality Disorder). Nos EUA existem serviços de apoio para pessoas que sofreram abusos narcisistas. Aqui, quase não se fala. E é por isso que escrevo essa matéria. O mais importante, caso você tenha tido o azar de se envolver afetivamente com um narcisista, é que saiba que não tem nada a ver com você. Porque você passa a pedir desculpas por erros que não são seus. Você é apenas uma vítima. Apenas pegue sua vida de volta, fique longe e se cure. Imagem: Shoichi Iwashita

CAPÍTULO 1: ANTES DAS EXPLICAÇÕES TÉCNICAS, O MICROCOSMO, O MEU INFERNO

Foi na véspera de Natal do ano mais difícil da minha vida que descobri todas as mentiras sórdidas e traições. Estávamos juntos havia quatro meses, tinha viajado para a cidade onde ele mora e estava ajudando a decorar a mesa para a noite. Queria preparar uma torta de pera para a ceia, precisava comprar farinha de amêndoas e como não conheço direito a cidade e a bateria do meu celular havia acabado, pedi o celular dele emprestado.

Pesquisei, liguei para várias lojas, mas no fundo eu já sabia o que fazer. Apenas abri o WhatsApp enquanto ele, de costas, arrumava os enfeites do pinheiro. Digitei o primeiro nome da pessoa na busca do aplicativo e li as mensagens. Foi assim que eu soube que estava sendo traído desde praticamente o começo do nosso namoro, apesar de todo o love bombing e o mirroring iniciais {o que significam e como funcionam essas táticas usadas pelos narcisistas, você lê mais abaixo}; por que ele iria de última hora para o Rio de Janeiro me deixando sozinho no Réveillon; e vi as fotos e os vídeos explícitos que foram enviados do banheiro, ontem mesmo, enquanto eu estava ali, praticamente o mês todo na casa dele, dormindo e acordando juntos, fazendo o almoço e o jantar todos os dias, assistindo a The Crown abraçados no sofá, trabalhando no quarto colado ao banheiro-estúdio onde aconteciam as conversas.

Na véspera de Natal, depois de breves quatro meses de um relacionamento exploratório e perverso, e sentindo aquela dor quase física no peito enquanto tinha de fingir que nada estava acontecendo por estar em uma cidade e com uma família que não eram as minhas — e assim permaneci pelos próximos três dias, tamanho o meu estado já avançado de despersonalização e deterioração psicológica; com o cérebro derretido e a alma estilhaçada —, eu descobri que, por mais que eu estivesse sempre aberto ao diálogo sincero, expusesse meus erros e fragilidades, e nunca houvesse brigado ou sequer levantado a voz, todas as minhas inseguranças dos últimos três meses não eram “invenções da minha cabeça”, que “você é muito inseguro e eu não gosto disso”, que era para eu parar de “loquear” (uma expressão que ele usava para dizer que eu estava ficando louco), que “nada do que eu falar você vai acreditar”, que “você está equivocado mas eu respeito” ou ainda “você está estragando tudo”. Eu sentia o que estava acontecendo. Mas ele me fazia duvidar da minha própria percepção, usando esta forma de violência psicológica — das mais sutis e perversas — conhecida como gaslighting.

Em um jantar na casa da minha melhor amiga em São Paulo, sabendo que ela conhecia algumas das minhas histórias de angústia, ele disse à mesa em tom de brincadeira: “não levem a sério tudo o que ele conta porque ele é muito dramático”. Esta é outra tática narcisista, conhecida como “recrutamento de flying monkeys (em referência ao filme O Mágico de Oz). Ao fazer isso, o narcisista testa os laços entre você e seus amigos e familiares, começa a conquistar as pessoas mais suscetíveis a ele e, de pouco a pouco, vai plantando uma imagem — de forma bem sutil, quase inocente — de que você é louco ou desequilibrado ou de “gênio difícil”. Seu objetivo é fazer com que, quando você precisar conversar sobre o relacionamento, as pessoas do seu círculo mais próximo não acreditem mais em você e fiquem do lado dele.

{O pior é que eu mesmo cheguei a acreditar em tudo o que ele falava de mim; achando que eu havia me transformado em uma pessoa insegura, sensível e dramática.}

Na véspera de Natal, apesar de ainda não entender exatamente o que estava vivendo — isso só foi possível com a ajuda do psiquiatra algumas semanas depois do meu sumiço — as cenas estranhas que se acumulavam na minha cabeça iam formando um quadro que começava a fazer sentido: o saco de pétalas de rosas vermelhas na geladeira, usadas em uma simpatia de amor para um cara…; o dia em que, ao me mostrar fotos de um de seus projetos, acabei vendo o print do perfil do Instagram de um homem bonito e esperei o almoço acabar para perguntar quem era…; os comentários apaixonados nesse mesmo perfil algumas semanas depois, exatamente iguais aos que ele escrevia para mim quando a gente estava se conhecendo, nos mesmos tipos de fotos (quando criança, com a mãe, “mas ele perdeu a mãe muito cedo e eu só estava sendo gentil”)…; o porquê de, no dia do aniversário dele no sítio da família, descobri com estranhamento que eu estava bloqueado de ver os stories que ele postava, assim como ele sempre faz com sua família…; as fotos de homens que eu via acidentalmente no rolo de câmera do celular; a viagem dele para o Rio com a amiga que “vai pagar tudo pra mim porque o marido não deixa ela viajar sozinha ela é meio estranha” quando a gente não tinha completado ainda nem um mês de namoro; e por que, de última hora, eu ia passar meu Réveillon sozinho, no ano da pandemia e em que a minha mãe tinha morrido, porque tínhamos combinado de passar o Natal lá com a família dele, o Ano Novo juntos em São Paulo, e já não havia mais passagens para eu passar com minha família que mora na Bahia.

No fim do ano, ele foi para o Rio atrás do cara (e ficar com outros, eu saberia depois) enquanto me escrevia que só estava indo porque o amigo dele que casou e ele não via há 18 anos o convidou e pagou as passagens — “o Bi** ele tem muitas milhas porque viaja muito a trabalho mas acho não tem espaço pra você na casa” –, e que era para eu ficar tranquilo pois “não tenho nenhuma vontade de biscatear, somos só nós dois” e “nunca faria nada que te machucasse meu lindo por que você é uma pessoa maravilhosa” e “você é o homem da minha vida”. Mas, trabalhando com turismo, descobri a agência da cidade onde ele comprou as passagens, o nome da vendedora, e até falei com a operadora que ficava na capital do estado; uma forma talvez de conseguir acreditar no que estava acontecendo, de conseguir acreditar que ele estava mentindo de novo, naquela escala. E ele seguiu negando até o momento em que mostrei as provas.

Comprou a passagem e viajaria com o dinheiro do décimo terceiro da aposentadoria confortável de um parente idoso com quem mora — a exploração e o abuso financeiro, não só o emocional, é outra característica dos narcisistas —, dinheiro que ele havia dito não ter ainda caído na conta quando seu parente lhe perguntou durante um almoço em meados de dezembro quando eu ainda estava lá. Exatamente da mesma maneira ele fazia comigo nas compras de supermercado, quando queria uma pulseira importada nova ou nas viagens que fizemos juntos: apesar de não me importar, pagava tudo porque ele se dizia sempre em dificuldades financeiras; ganhava até o auxílio emergencial oferecido pelo governo durante a pandemia. Ele sabia que havia milhares de famílias carentes que não tinham conseguido o benefício, mas quando eu tentava chamar a atenção, não importava a mínima. Os narcisistas, por se considerarem superiores, têm o chamado senso de entitlement: por serem especiais, eles, por direito divino, são merecedores de todos os privilégios, estão acima dos outros.

Situações inacreditavelmente humilhantes completam a sensação de anulação do meu valor como homem. Coisas que até hoje não consigo verbalizar; seja contar para o psiquiatra ou mesmo para minha melhor amiga… apesar das cenas seguirem vívidas na minha cabeça, me trazendo sempre as sensações horríveis que senti, como se estivessem acontecendo novamente em um replay infinito enquanto ele passa o Carnaval no Rio de Janeiro… enquanto ele segue postando as fotos e vídeos que eu fiz dele nas viagens que fizemos juntos, me cortando das fotos e até copiando textos aqui da Simonde para incluir como legenda… como se ele tivesse viajado sozinho e por conta própria, como se ele tivesse escrito aquelas linhas.

O que não é novidade: já tinha sido assim durante as viagens, quando se mostrava apaixonado, apesar de só postar fotos sozinho; apesar de estar sempre criando rapidamente intimidade e seduzindo as pessoas importantes que ele conhecia através do meu trabalho — até mesmo sexualmente, enquanto eu estava trabalhando, entrevistando alguém ou fazendo fotos do hotel… —; e mostrando uma persona idealizada de si mesmo para o mundo nas redes sociais, como se aquele fosse o seu mundo.

E essa matéria é sobre isso. Como o narcisista te conquista, te “espelha” e te oferece o mundo, trabalha e se alimenta da insegurança que ele cria em você, come seu cérebro, acaba com seu discernimento e, consequentemente, com sua dignidade.

Por que alguém fica em um relacionamento assim? Porque o sistema de manipulação emocional do narcisista começa com uma técnica que te leva ao paraíso do amor: o love bombing. E é quando ele te prende para te usar como quiser.
 

 
Atenção:
Raros narcisistas são aqueles caras chatos — sim, 70% são homens — que, conforme o clichê, só falam de si mesmo (sempre de forma a vangloriar sua incrível vida), ou que, vaidosos, vivem se olhando no espelho. Há vários tipos de narcisistas — incluindo os dissimulados ou vulneráveis (em inglês, covert narcissists, em oposição aos overt narcissists). E a história que conto hoje é a minha experiência de relacionamento afetivo com alguém que fica entre o narcisista dissimulado fantasioso e trapaceiro, embasado em conversas com psicólogos e psiquiatras, além de pesquisa de artigos acadêmicos. Não tem a pretensão de ser uma matéria completa sobre o assunto, porque narcisistas também são colegas de trabalho, pais, irmãos, e não trato dessas esferas aqui. O objetivo desta matéria é apenas ser um alerta para que você, que está aberto para um envolvimento afetivo, se afaste e desapareça ao menor sinal de que a vida tenha colocado um narcisista no seu caminho. Porque esse é um transtorno de personalidade que não tem cura. E os narcisistas não perdem nunca.
 

CAPÍTULO 2: PARTE DO COMPLEXO MACROCOSMO, COMO IDENTIFICAR UM NARCISISTA?

Narcisistas são vândalos emocionais, quase psicopatas. Com a capacidade — e o talento, tamanha a sofisticação da manipulação — de aniquilar sua saúde mental, deixando sequelas que podem vir a ser irreversíveis. Isso porque eles são charmosos, carismáticos, atraentes, gentis, sensíveis e, atenção: extremamente empáticos, afetuosos e preocupados socialmente — com suas muitas amizades, sempre superficiais, temporárias ou esporádicas (seu nível de sociabilidade é sempre vazio e falso); e, por isso, dificilmente percebidos como portadores de um transtorno de personalidade.

Mas, atores e lógicos e hábeis que são, têm a capacidade de espelhar os outros para gerar conexões imediatas, de expressar emoções adequadas de acordo com o interlocutor (chegam a chorar para gerar comoção, e eu vi isso algumas vezes), o que os faz conseguir criar uma intimidade quase instantânea com as pessoas que lhe interessam, ou seja, seus fornecedores potenciais quando o assunto é status, dinheiro, favores, sexo, posição social — porque eles amam ter amigos importantes, já que isso lhes traz cachet. Parece que eles realmente se importam com o sentimento e o bem-estar dos outros. Na intimidade, porém, são extremamente perversos. E quando expostos em suas perversidades, seu grande medo, se comportam como um animal caçado em um beco de saída, e imediatamente se transformam em vítimas indefesas.

Eles são, sim, vaidosos (mais no sentido de preocupados com a impressão que o mundo tem deles), mentem compulsivamente (sempre com histórias de difícil comprovação), distorcem a realidade, mas a principal característica de um narcisista é que suas vidas giram em torno de explorar os outros — familiares, amigos e parceiros afetivos —, nos mais diferentes níveis, para satisfazer seus interesses pessoais, de maneira fria e calculista, sem qualquer crise de consciência. Para isso fingem afeto, inventam histórias dramáticas sobre como foram vítimas de suas famílias e ex-namorados (que só depois de muito descobre-se que são mentiras ou exageros), e, de novo, é impressionante como choram copiosamente para te sensibilizar. Porque é dessa atenção que se nutrem os narcisistas.

Seu grande objetivo? Aproximar-se e conquistar pessoas bem posicionadas não só financeiramente, mas porque são também deslumbrados com o poder, a beleza e o status que lhes são de direito. Pensam grande, se sentem grandes (mesmo quando são medíocres, já que não possuem muita conexão com a realidade), e fazem o que querem, do jeito que querem, de forma quase sempre impulsiva, mesmo conscientes de que suas atitudes podem ser prejudiciais para si, como, por exemplo, gastar demais ou fazer sexo desprotegido, ou machucar familiares e companheiros, pessoas que eles sabem que não vão deixar de amá-los.

São incapazes de medir consequências, de assumir responsabilidades, de reconhecer erros — nem tente discutir alguma coisa porque você vai achar que é você o louco —, e, principalmente: apesar de vulneráveis, são completamente desprovidos de empatia; são incapazes de se colocar no lugar do outro em um nível quase psicopáticoEles vão, sim, dizer que se arrependem, pedir desculpas, chorar, mas não porque o sentem de verdade, mas para manter os privilégios da(s) relação(ões) de que usufruem.

O mais triste, principalmente para quem os ama, é que o Transtorno de Personalidade Narcisista de que sofrem, com suas alterações profundas de caráter e sofisticado sistema de vandalismo emocional e manipulação — como o mirroring —, não tem cura. E, apesar de existirem diversos níveis e tipos de narcisismo (e todos o somos em certo grau), ele se torna patológico quando passa a trazer consequências negativas, a trazer sofrimento para eles e para os outros. São inseguros ao extremo, têm a autoestima muito baixa — o que explica sua necessidade de grandeza e de validação constante —, mas nada disso impede que eles te levem junto para o fundo do poço que são suas vidas. Amor nenhum salva.

CAPÍTULO 3: COMO EU FUI CAIR NESSA?

Só que diante das demonstrações efusivas de afeto, de atenção e de carinho ao conhecer um narcisista, que te fazem sentir acolhido, ouvido, visto, amado como nunca antes, e acreditar que vocês foram feitos um para outro — como largar sua alma gêmea? —, é simplesmente impossível vislumbrar o que te espera quando você já se apaixonou, e o quão rápido as coisas mudam a partir do momento que ele conseguiu vencer o desafio de te conquistar…

A dor das incontáveis mentiras (e justificativas mentirosas) porque simplesmente não conseguem viver na realidade, confrontar a verdade e serem transparentes; a dor das traições virtuais e físicas mesmo quando se dizem apaixonados porque precisam constantemente do olhar e da admiração de um novo outro; a dor do desdém e da frieza com os sentimentos nos piores momentos daquele que sofre, muitas vezes, calado (essa foi uma das consequências do gaslighting em mim)… É uma espiral de deterioração da saúde mental, de despersonalização daquele que cruza seu caminho, que leva à auto anulação, à inércia e à quase total incapacidade de reagir.

Eu namorei um narcisista. Tenho 42 anos, vivi três relacionamentos que duraram 18 anos da minha vida (mantenho contato não só com meus três ex-namorados, mas também com suas famílias até hoje), fiz quase quinze anos de terapia, tenho um círculo social amplo… E mesmo sendo uma pessoa que se sente preparada para as dificuldades que a vida impõe, algumas vezes de forma implacável, me assustei quando, ao chegar em um estágio de tamanho desespero mental a ponto de ter de recorrer a um psiquiatra, descobri que vivi um relacionamento que se encaixava em um roteiro pré-determinado e completamente previsível de uma relação doentia, exploratória e perversa com um narcisista, termo que tampouco me era comum.

Talvez pelo contexto de morarmos em cidades diferentes durante a pandemia, acabamos convivendo muito. Somando os dias, dos quatro meses, foram praticamente dois meses dormindo e acordando juntos, fazendo supermercado, viajando, assistindo a séries. E, ao longo desse curto espaço de tempo, eu vivi todas as etapas clássicas dessa relação, cujos nomes ainda seguem na maioria sem tradução para o português: o love bombing com o espelhamento, as muitas red flags, o gaslighting, os flying monkeys, o desprezo, o hoovering e o love bombing parte II… E só não fui descartado como geralmente acontece, porque o nível de humilhação foi tanto que tirei forças não sei de onde para simplesmente desaparecer. Mesmo sentindo uma vontade quase insuportável de tentar dialogar e resolver e ficar juntos para sempre.

CAPÍTULO 4: A MAGIA SEDUTORA E PERVERSA DO LOVE BOMBING

19 de agosto de 2020, dois dias depois de eu ir pela primeira vez ficar com ele. Nas primeiras semanas de um relacionamento com o narcisista, você é bombardeado de amor, mensagens, ligações, áudios fofos e carinhosos. Se sente vivendo em um sonho pois ele te faz acreditar que estão predestinados um ao outro.

A primeira fase de um relacionamento abusivo com um narcisista é se sentir a pessoa mais amada do mundo. É o “bombardeio de amor”, em uma tradução livre do “love bombing”. Ele diz que nunca conheceu alguém como você; se importa com as suas histórias, com o seu passado; finge ter os mesmos interesses, gostos e valores para criar uma conexão imediata — o mirroring ou espelhamento —; e faz você acreditar que são almas gêmeas, que estão predestinados um ao outro. Ao mesmo tempo, ele te conta histórias íntimas, coisas de família, fazendo você acreditar que existe ali um espaço de entrega, de troca verdadeira e sincera.

Você nunca recebeu tanto carinho, tanta atenção e preocupação de alguém; e, de alguma forma que eu não sei explicar — porque eu conheço interesseiros de longe —, é fácil acreditar, suas atitudes não parecem inadequadas ou assustadoras. Ele mesmo te idealiza como a pessoa perfeita, porque isso o faz se sentir mais importante. Mas é nessa fase também que ele está conquistando sua confiança e colhendo as informações, conhecendo suas forças e fraquezas — e, principalmente, inseguranças —, para te usar depois. E é tudo muito rápido, para te tirar o equilíbrio emocional, para você meio que não ter tempo de processar o que está acontecendo.

No começo, as mensagens, os áudios e as ligações eram longas (chegamos a conversar por cinco horas em uma chamada de vídeo), constantes e repletas de afeto e projeções para o futuro. Na terceira semana, eu já estava conhecendo os amigos mais próximos, a família toda — o que, para mim, foi como um sinal de que a gente teria mesmo um futuro, de que ele realmente queria —, e viajando para o sítio dos pais. Tudo isso para “plantar a sementinha” porque “meu sonho é construir uma família (com) Meu namorado meu amigo meu marido que vai ser eternamente meu namorado”. No convívio, o afeto e o cuidado eram enormes, seja nas gentilezas diárias dos muitos dias que eu já estava passando lá, como nos momentos de intimidade. É como se o amor fosse real e verdadeiro; é como se ele realmente quisesse construir uma vida com você para sempre. Você acredita nas coisas que ele diz, confia, baixa a guarda, se envolve. E isso basta para as coisas mudarem rapidamente.

CAPÍTULO 5: ATENTE-SE PARA AS RED FLAGS, ELAS APARECEM RAPIDAMENTE

1 de setembro de 2020, quando o love bombing já estava acabando.

No começo do relacionamento, ele era preocupado e extremamente afetuoso. Nas primeiras semanas de love bombing, você já está envolvido, apaixonado, vivendo o começo de uma rotina. Aí, começam as primeiras red flags, as “bandeiras vermelhas”, os alertas; pois uma vez que você já se tornou seu fornecedor de afeto, sexo, dinheiro e status, ele perde o interesse por você, começa a fase da desvalorização e você se depara com uma pessoa completamente diferente (é uma coisa Dr. Jekyll and Mr. Hide, mas, aí, você já está no modo “apostando no relacionamento, pensando que pode ser o jeito dele, que ninguém é perfeito e eu preciso ser compreensivo e paciente”). Aquele cara apaixonado já não existe mais, as mensagens já não são mais tão frequentes e carinhosas. Ele pode desaparecer por dias, estando com os amigos. Você tenta ligar e ele não atende; manda mensagem, mas as respostas vêm frias, quando vêm.

Você começa a se perguntar o que teria acontecido, pergunta para ele se existe algum problema e a resposta é que está tudo perfeito. Tem dias que ele vai te escrever dizendo que não te merece, que precisa de um tempo. Depois, volta com o afeto. Essas primeiras sensações de insegurança sobre o andar do relacionamento que o narcisista gera em você quando já se está envolvido é o principal mecanismo de manipulação do narcisista: você passa a se sentir de alguma forma responsável pelo afastamento dele, acha que é insuficiente, passa a se dedicar ainda mais à relação, e, assim, o narcisista tem cada vez mais o suprimento, a droga de atenção de que ele precisa. A lógica é sempre: quanto mais inseguro, mais manipulável.

CAPÍTULO 6: GASLIGHTING, O MAIS PERVERSO — E SUTIL — DOS ABUSOS PSICOLÓGICOS

Algumas das muitas frases de gaslighting que ouvi, que li, sempre que eu tentava conversar sobre algo de errado que via, que sentia estar acontecendo. Até o momento em que eu não conseguia mais me expressar. Só quando descobri que a maioria das coisas de que eu desconfiava era verdade, deixei de achar que eu era dramático, sensível e inseguro. 

Quando você ama, você defende o ser amado para seus amigos quando eles te alertam, procura todas as justificativas possíveis porque você quer acreditar nesse amor. E quando ainda não há certeza mas apenas indícios das mentiras e traições, você quer, sim, acreditar que é “tudo coisa da minha cabeça”, que aquela ideia que corta o peito de dor é controlável, pois se eu a inventei, eu tenho o poder de desinventá-la para seguirmos felizes. A prática do gaslighting, acreditar que você é o problema, até te tranquiliza, olha só. Mas, logo, ela começa a destruir o seu psicológico.

O gaslighting é a mais sutil e perversa forma de violência psicológica, gera sequelas profundas e duradouras, e tem como objetivo fazer com que a vítima se sinta confusa com relação aos seus pensamentos e sentimentos; duvide de sua memória, das suas capacidades mentais, da sua percepção da realidade e até mesmo da sua sanidade mental, minando a autoconfiança e a autoestima, o que dificulta o rompimento do vínculo abusivo. Você sabe que ele está mentindo, sabe que ele está traindo, mas ele faz você duvidar de sua própria percepção sobre indícios consistentes.

O termo vem do filme Gaslight, de 1944 (a maravilhosa Ingrid Bergman ganharia o Oscar com o filme), que conta a história de um homem que, querendo ficar com a fortuna da esposa, cria uma estratégia para convencê-la de que ela está perdendo a razão, até que ela própria passa a questionar sua sanidade mental. E tudo é feito de maneira simples: entre outras coisas, como mudar objetos de lugar, ele começa a desregular a luz da casa — na época, à gás, daí o nome do filme —, e quando a esposa percebe a iluminação diferente, ele apenas afirma o contrário e começa a mostrar preocupação com seu estado mental, fazendo com que ela ache que está realmente ficando louca.

Assim como no filme, o narcisista primeiramente cria situações para te deixar inseguro e te desestabilizar emocionalmente (lembre-se de que ele já sabe das suas fraquezas com as informações que ele coletou na fase do love bombing). Aí, quando você expressa o que está sentindo — você sabe, sente que tem alguma coisa de muito errada acontecendo —, vem o gaslighting, como forma de comer tua mente, te deixar vulnerável, para que ele tenha maior controle sobre você. É tudo tão surreal que chega a um ponto em que você não consegue mais se expressar, nem articular o que está acontecendo para você mesmo; deixa de contar as coisas para as pessoas próximas porque é humilhante, a culpa é minha, sou eu o errado da relação.

Sem falar que o narcisista nunca assume suas reais intenções. A coisa é tão perversa que eles chegam a demonstrar preocupação com seu bem-estar nesta fase. Porque tudo o que o narcisista quer é o controle da relação através da manipulação; tudo o que ele não quer é que você deixe de suprir as suas necessidades de atenção, afeto, sexo, dinheiro e status. Até que ele encontre um fornecedor que vá te substituir.

CAPÍTULO 7: STONEWALLING, O TRATAMENTO DO SILÊNCIO

Sexta-feira, 9 de outubro de 2020. Um dos muitos exemplos de recusa de conversar. Ou não queria mesmo, não respondia as mensagens, não atendia o celular, ou inventava uma desculpa para não conversar e desaparecia por dias.

Outra tática usada pelos narcisistas é conhecida como stonewalling: o “tratamento do silêncio” (Silent Treatment), quando eles simplesmente se recusam a conversar sobre algum assunto que lhes possa ser desconfortável. É diferente do gesto de não querer conversar naquele momento, de não estar preparado para discutir o assunto e pedir um tempo para pensar. Apesar das desculpas — “estou muito triste”, “estou na obra agora e não posso falar” — e do desaparecimento por dias, nos casos de relacionamentos narcisistas, o stonewalling é apenas outra forma de manipulação e punição por você ousar querer discutir com ele algum assunto que te esteja causando sofrimento, como uma desconfiança de traição, por exemplo. Como o narcisista não tem empatia, ou seja, ele não se importa com o seu sofrimento, essa também é uma forma de não precisar lidar com os assuntos do relacionamento. Porque, uma vez que essa punição faz com que você sofra além do motivo original, você vai desenvolvendo um medo do silêncio dele. Passa a ver as coisas erradas e a não falar mais. Passa a sofrer calado. É tudo o que ele quer.

CAPÍTULO 8: O HOOVERING, QUANDO ELE SENTE QUE ESTÁ TE PERDENDO E QUER TE SUGAR PARA A RELAÇÃO DE NOVO COM MAIS LOVE BOMBING

4 de janeiro de 2021. O melhor exemplo de hoovering, pois nos primeiros dias em ele estava no Rio, eu parei de falar com ele. E, apesar das palavras apaixonadas — foram dias de love bombing — , ele estava ficando com vários caras na Cidade Maravilhosa. E, dos dez dias que ele passou lá, em nenhum momento, arrependido que estava, ele pensou em vir ao meu encontro para que ficássemos juntos. Mesmo fazendo escala em São Paulo, onde eu estava, sozinho, nos últimos doze dias, incluindo o Réveillon.

Hoover é uma a marca de aspirador de pó estadunidense. E é exatamente isso que o narcisista faz quando percebe que você teve um momento de lucidez e ele te sente se afastando, ele se sente perdendo o controle: ele vai fazer de tudo para te sugar de novo para o relacionamento abusivo. Geralmente com mais uma sessão de love bombing, te dizendo coisas que você quer desesperadamente ouvir, explorando suas fragilidades e inseguranças. Mas, não se engane, ele só quer recuperar o controle sobre você. Nessa fase, ele vai confessar seus erros, pedirá desculpas por tudo o que fez, dirá que mudou, fingirá humildade e remorso, declarará amor por você. Só não caia nisso. Há relacionamentos narcisistas em que o hoovering acontece dezenas de vezes, entre idas e vindas, quando a vítima está sempre atrás de sentir de novo aquele acolhimento e romantismo do love bombing. Mas quanto mais vezes isso acontece — li um caso em que a vítima voltou 37 vezes para o narcisista — os períodos de amor vão ficando cada vez mais curtos. Não vale o custo da sua saúde mental. Porque, lembre-se, o narcisismo não tem cura.

CAPÍTULO 9: O FIM

Quando ele chegou ao Rio, o cara por quem ele estava apaixonado não estava disponível. Tinha conhecido alguém, o que o fez ir atrás de outros caras para curtir o Réveillon. No dia 1 de janeiro de 2021, o cara postou uma foto no Instagram assumindo o namoro. Não só. O ex-namorado do meu namorado narcisista também assumiria no Instagram, nesse mesmo dia, o namoro com um cara com quem estava saindo há alguns meses. E foi essa a única motivação — talvez a de mostrar que não estava por baixo —, que o levou a postar, depois de quase cinco meses, a primeira foto comigo no seu feed, também com um coração na legenda, exatamente como os outros dois haviam feito. Mas, em vez de ficar feliz pela conquista ter nossa primeira foto, juntos, postada, me senti humilhado. Mais uma vez.

Ao longo desses quatro meses, nenhuma foto nossa. Pedia as fotos que eu tirava, publicava, e sequer mencionava que as fotos não eram dele. Das nossas três viagens, postou mais de 150 fotos, até com uma pessoa que ele havia acabado de conhecer. Nunca comigo. Apesar de fornecer tudo aquilo que ele precisava naqueles meses, o apoio emocional, o estímulo profissional, a convivência harmônica com a família, o afeto e sexo, eu fui sempre invisível em seu universo narcisista. Tão invisível que eu simplesmente decidi desaparecer.

LEIA TAMBÉM:

— Desapego à vida

— Ter é cuidar; tenha menos e viva mais

Filosofando com Voltaire

Arte-Banner-Instagram-Divulgacao-10