Os porcos — na foto, já mortos — possuem sistemas imunológicos impressionantemente parecidos com os nossos, e é da produção industrial de animais que vêm as maiores ameaças à saúde global; e como a gente tem visto com esse novo coronavírus, à nossa liberdade também.

Absolutamente ninguém acreditaria se o mais incrível dos videntes dissesse no auge do Carnaval de 2020 que, em 30 dias, países fechariam fronteiras; companhias aéreas colocariam 13 mil aviões no chão (mais de 60% da frota mundial, algo sem precedentes na história da aviação); cafés, restaurantes e museus das principais metrópoles do mundo seriam obrigados a fechar; e sistemas de saúde de países desenvolvidos entrariam em colapso. Mas foi isso o que aconteceu. Em 2020, o mundo parou. E não tem data para voltar.

Só que da mesma forma como, durante os incêndios criminosos da floresta amazônica e do cerrado, governo e mídia insistem em não tratar dos motivos reais pelos quais empresários destroem esses biomas importantes — abrir espaço para pasto ou extensas monoculturas de soja transgênica para virar principalmente ração para o gado; 40% da produção mundial de alimentos é destinada à criação de animais que viram ou produzem comida —, pouco tem se falado sobre a origem das pandemias nos últimos cem anos: nosso apetite por proteína animal, seja de animais selvagens ou domesticados, cujos preços baixos decorrentes da produção industrial levaram a um superconsumo de carne, leite, iogurte e ovos, transformando seres inteligentes e sencientes em produtos-em-série. E esse é o motivo desta matéria: porque é da exploração industrial dos animais que nasce a maioria das pandemias.

A EXPLORAÇÃO ANIMAL PODE ACABAR COM O MUNDO

Doenças infecciosas que “pulam” dos animais para, através das mutações genéticas típicas dos vírus, encontrar abrigo no corpo humano sem anticorpos para se defender deles, as doenças zoonóticas formam 70% das enfermidades surgidas desde a década de 1940 e respondem atualmente por 75% de todas as doenças infecciosas emergentes. Pode haver quase dois milhões de vírus não descobertos na natureza, sendo que, apenas em mamíferos — o que aumenta o risco de infecção humana por conta da semelhança genética —, são aproximadamente 320.000.

E nem é preciso se aprofundar muito para entender os prejuízos estratosféricos — humanos, econômicos e ecológicos — decorrentes da produção industrial de animais: além da destruição do meio ambiente (das florestas aos rios, passando pela extinção maciça de espécies que perdem seus habitats — quase dez mil espécies desaparecem todos os anos, causando desequilíbrio nos ecossistemas) e o fato de a pecuária ser a maior responsável pela emissão de gases de efeitos estufa  (mais do que todos os meios de transporte somados), tem o uso excessivo de água doce, a crueldade animal, a administração exagerada — e irresponsável — de agrotóxicos e antibióticos. Por conta da contaminação dos lençóis freáticos com os excrementos e da bioacumulação através do consumo do leite e da carne (imagine que 75% dos antibióticos fabricados no mundo são usados em animais na produção de carne), humanos vêm desenvolvendo resistência aos antibióticos. Doenças até então consideradas simples hoje levam à morte 700 mil pessoas por ano e podem matar até 9,5 milhões de pessoas por ano até 2050.

Só que esses custos não vêm embutidos no preço da picanha, da bisteca e da sobrecoxa; do leite, dos queijos e iogurtes; dos ovos… No entanto, somos obrigados a pagar com a nossa saúde decisões tomadas livre e individualmente por empresários que atuam apenas em interesse econômico próprio, sem a devida intervenção por parte dos governos neoliberais em defesa da saúde pública e do meio ambiente.

NÃO, O INFERNO NÃO SÃO OS OUTROS

Produção industrial de porcos em foto do ativista Airton Garmendia, do Tras Los Muros.

É uma grande hipocrisia culpar os chineses por terem desenvolvido o hábito de comer animais selvagens quando 40 milhões de pessoas pereceram de fome no fim dos anos 1950. Não só porque brasileiros também comem animais silvestres como tatus, capivaras, preás, jacarés e cobras.

Logo após a Primeira Guerra Mundial, o vírus H1N1 matou 50 milhões de pessoas (incluindo o presidente do Brasil), voltou em nova versão em 2009, infectou 1,4 bilhão de pessoas e matou mais 575.000 pessoas. Só que ambas as cepas desta influenza do tipo A surgiram em fazendas de porcos nos Estados Unidos. A encefalopatia espongiforme bovina — a doença da “vaca louca” — surgiu nas fazendas de gado inglesas em 1986, adoeceu milhares de bois e vacas (sacrificadas às centenas diariamente), e tirou a vida de 158 pessoas. Gripes suínas e aviárias surgem todos os anos, em todo o mundo. Mas, felizmente, ou ficam restritas à transmissão entre os animais, ou, no máximo, entre porcos, aves e humanos (geralmente infectando apenas os funcionários das fazendas), sem que o vírus tenha a capacidade de ser transmitido entre humanos.

Mas não acaba aí. Entre as doenças zoonóticas transmissíveis entre os homens estão o Ebola, o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), o Zika, a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), todas as mutações de gripe que resultam em vacinas atualizadas anualmente, e, agora, a Sars-CoV2, uma nova cepa de coronavírus que tomou o mundo em 2020, identificada em um mercado de animais vivos, os chamados “mercados molhados”, de Wuhan, na China, no fim de 2019.

E a grande questão é que essa pandemia de Covid-19, a doença respiratória aguda provocada pelo vírus Sars-CoV2 — a versão 7.0 dos coronavírus e a mais mortal epidemia que surgiu no mundo nas últimas décadas —, é tudo menos um desastre natural aleatório, imprevisível e sem precedentes. Tampouco é responsabilidade dos pobres que precisam comer qualquer coisa para sobreviver, de culturas gastronômicas diferentes das nossas ou ainda uma praga enviada por Deus (pode até ter sido no passado, com a Peste Negra, na Europa do século 14). Somos nós, capitalistas-consumidores-irresponsáveis, que estamos criando — e alimentando — as pragas que nos destroem.

DESTRUIÇÃO DA NATUREZA + PECUÁRIA INDUSTRIAL = PANDEMIAS

A relação íntima entre a demanda crescente por produtos animais, a destruição dos ecossistemas originais para atender ao mercado e as pandemias vem sendo denunciada há anos por cientistas, pela Organização Mundial da Saúde (WHO), pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnud), e até pela série Pandemia, lançada em-timing-perfeito pela Netflix em janeiro de 2020. Na abertura do primeiro episódio, Dennis Carroll, diretor da Unidade de Ameaças Emergentes da Agência Nacional para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, afirma: “quando o assunto é uma outra pandemia de gripe (se referindo à gripe espanhola), não é uma questão de ‘se’, mas uma questão de ‘quando’”. Mal sabia ele durante as gravações que o ‘quando’ estava tão próximo.

As pragas e epidemias são, sim, parte da história humana e, da mesma forma que os brancos dizimaram os povos originários da América com vírus para os quais eles não tinham anticorpos, animais vêm infectando os homens há séculos. Mas, hoje, a criação industrial de animais para consumo humano é a principal — e uma constante — ameaça à saúde pública global, à economia, à natureza, e, como a gente pode ver agora, à nossa liberdade, ao mundo que conhecemos.

DOIS TRILHÕES DE ANIMAIS MORTOS TODOS OS ANOS

Não tem fim nosso apetite por proteína animal. O crescimento econômico do mundo junto com o crescimento exponencial de uma população onívora — de 1,8 bilhão de pessoas em 1920 para os atuais 7,5 bilhões, mais de quatro vezes maior em cem anos — fizeram expandir enormemente a pecuária industrial: a produção de alimentos de base animal é hoje o coração do agronegócio mundial. Entre frangos, perus, patos, porcos, bois, búfalos, coelhos e ovelhas, 75 bilhões de animais são abatidos anualmente para consumo humano; sem contar os animais selvagens, como é hábito gastronômico nos países asiáticos; e peixes e frutos do mar, cujos números chegam a 13 dígitos (em uma estimativa a partir da quantidade de toneladas produzidas, isso daria de um a 2,5 trilhões de animais mortos anualmente).

FAZENDAS INDUSTRIAIS: AS CONDIÇÕES PERFEITAS PARA O SURGIMENTO DAS EPIDEMIAS

E nada mais propício para o surgimento e a transmissão de vírus que a proximidade física entre animais selvagens — “empurrados” de seu habitat com o crescimento urbano e do agronegócio — em contato quase direto e prolongado com as criações que surgem nesse espaço; com essa quantidade absurda de animais de abate de genótipos parecidos — agora expostos a doenças antes isoladas —,  uma crescente monocultura genética que remove qualquer obstáculo imunológico disponível para retardar a transmissão de novos patógenos, e que vivem confinados em espaços de altíssima densidade e rotatividade, deprimindo a resposta imunológica e aumentando a taxa de transmissão.

Esta situação dá aos vírus oportunidades e recursos para que eles sofram mutações genéticas de uma maneira que todos os elos dessa nova cadeia tenham o potencial de serem infectados, ou seja, aumentando a probabilidade de transbordamento biológico. Além disso, a produção industrial de animais é também responsável pela geração de um volume enorme de resíduos e excrementos — com grandes quantidades de patógenos — que são despejados nos rios e na terra, sem qualquer tratamento.  E prosseguem com o ciclo, colocando em risco aves e outros animais selvagens.

COMO COMEÇA UMA EPIDEMIA A PARTIR DE UMA MERA GALINHA?

No caso do vírus Nipah, responsável por um surto de gripe suína na Malásia em 1998 que matou milhares de porcos e mais de cem pessoas (a taxa de letalidade era altíssima, entre 40% e 75%, mas o surto foi felizmente controlado), a fazenda estava em uma floresta tropical recém desmatada. Além da semelhança genética, porcos e homens têm um sistema imunológico impressionantemente parecido (por isso, todas as vacinas são testadas em porcos antes de começarem os testes de viabilidade em seres humanos); ou seja, algumas pequenas mudanças genéticas no vírus fazem com que ele seja facilmente transmissível para nós.

Muitos vírus assustadores têm sido relacionados com os morcegos (Ebola, Sars, Mers, esses dois últimos coronavírus), vírus esses que não fazem mal a esses mamíferos alados que são conhecidos por serem reservatórios de influenza. Mas, no caso do vírus Nipah, os morcegos comiam as frutas das árvores, que caíam no chão com a saliva dos morcegos. Os porcos comeram as frutas, ficaram doentes, o vírus sofreu uma mutação genética, infectou os funcionários da fazenda, e essas pessoas passaram a infectar outras. Simples assim. (Por isso, dá para entender a preocupação excessiva que os aeroportos do mundo têm com viajantes transportando frutas e verduras, ou que visitaram fazendas antes da viagem.)

Aves migratórias também são responsáveis por transportar vírus. Nos Estados Unidos, um caçador pode começar um surto de gripe aviária ao pisar no sangue ou nos excrementos de uma ave dessas, se não limpar bem as botas antes de entrar em um galinheiro.

TRANSPORTE E EXPORTAÇÃO DE ANIMAIS VIVOS

Uma vaca toma 200 litros de água por dia. Ao longo dos dois anos de vida até ser abatida, ela vai tomar 146.000 litros de água, um luxo que países que sofrem com escassez de água, como a maioria dos países do Oriente Médio, prefere evitar (eles recebem o gado já crescido e cuidam apenas dos dois últimos meses antes do abate, que tem de ser feito com o animal consciente — sangrando até morrer — de acordo com as tradições halal ou kosher). Outros países preferem também, ao invés de contratar caros contêineres refrigerados para importar a carne congelada, receber os animais vivos e matá-los lá mesmo; e nem preciso dizer que isso acontece em condições deploráveis e de extrema crueldade (assista a um vídeo se tiver estômago).

E é assim que dois bilhões de animais viajam longas distâncias todos os anos — por terra, por mar e por ar —, aumentando ainda mais o risco de proliferação de doenças zoonóticas pelo mundo; um número que só tende a aumentar.

NÃO HÁ SAÚDE EM UM MUNDO DOENTE

Se a pandemia de H1N1 que surgiu em fazendas de porcos nos Estados Unidos em 2009 matou 18.500 pessoas em dois anos, o Covid-19 já conta com 105.000 mortes em apenas quatro meses e mais de 1,7 milhão de pessoas infectadas em todo o mundo (escrevo esta matéria no dia 10 de abril de 2020). Por isso, é imperativo que todos nós repensemos a nossa relação com os animais dentro do contexto capitalista. Mudar hábitos e parar de explorar animais para a nossa alimentação, não é só uma questão de compaixão para com eles, com o próximo ou simplesmente paladar. Tornou-se uma questão de sobrevivência.

Como disse o papa em sua bênção Urbi et Orbi em caráter extraordinário, em uma Piazza San Pietro completamente vazia no auge da epidemia de coronavírus na Itália, “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. (…) não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

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