A cerimônia do chá japonesa, o chanoyu, é também um caminho filosófico para a vida. Imagem: Michihiro Tanaka

Uma das coisas que mais me trazem paz de espírito é a beleza de ver o líquido do chá — com sua cor entre o âmbar e o verde-oliva, dependendo da oxidação das folhas — sendo, como se diz em Portugal, deitado em uma xícara de porcelana imaculadamente branca; um prazer estético-sensorial proporcionado por essas duas instituições milenares originárias da China que encantaria as elites europeias a partir do século 13. {Conheça o príncipe saxão que conseguiu finalmente descobrir o segredo chinês da porcelana em 1708, clicando aqui.}

O CHÁ E O BUDISMO, UMA INTRODUÇÃO: ORIGENS PRÓXIMAS NO ESPAÇO QUE SE CONECTAM AO LONGO DOS MILÊNIOS

O imperador mítico Shennong — uma divindidade tanto na China quanto no Vietnã —, aos 140 anos de idade, considerado um fazendeiro divino e descobridor do chá, em uma pintura de Guo Xu, de 1503.

Rainha das camélias, os arbustos de chá são cultivados há mais de três mil anos na província de Yunnan, no sul da China, não muito longe do Nepal, onde nasceu o príncipe Siddharta Gautama, que viria a ser o Buda, O Desperto.

E, ao longo dos milênios — nos anos 2700 a.C. algumas folhas de chá teriam caído na tigela de água do imperador mítico Shennong, alterando sua cor e sabor —, o chá foi a “espuma de jade líquido” dos imperadores chineses e adotado também pelos monges budistas quando seu potencial estimulante foi descoberto (as folhas de chá têm quase o dobro de cafeína dos grãos de café * e nem preciso dizer que o efeito despertador da bebida foi muito bem-vindo pelos monges em suas longas sessões de meditação).

Do continente, o chá chegou ao arquipélago do Japão no século 8, quando, na China, a bebida já deixara de ser um remédio e tornou-se não só um refinado passatempo poético mas também um método de autocompreensão (A Sagrada Escritura do Chá, o primeiro tratado da história dedicado ao chá, escrito nos anos 760 pelo poeta Lu Yu, reconhece no ato de preparar, servir e beber chá a ordem e a harmonia misteriosa do universo). Trazido pelos embaixadores japoneses no continente, o chá era servido pelo imperador a convidados especiais: de acordo com um documento, em 729, o imperador Shomu serviu chá a cem monges em seu palácio em Nara, na época, capital do Japão.

Nos séculos seguintes, jardins de chá se espalharam pelo arquipélago. Entre os anos 1168 e 1191, o monge japonês Eisai Zenji foi estudar na China o budismo chan (que viria a ser o zen budismo) — bastante influenciado pelo taoísmo, que considerava o chá um ingrediente importante do elixir da imortalidade — e trouxe na mala não só a filosofia zen que se espalharia rapidamente pelo Japão e um já elaborado ritual do chá, mas também as sementes que seriam plantadas, entre outros lugares, no distrito de Uji, nas cercanias de Kyoto; quase mil anos depois, ainda considerado um dos melhores chás do mundo (e um dos passeios a não perder quando no Japão, pois é tão essencial como visitar vinícolas na França ou na Itália).

E é no século 15 que esse ritual zen, que essa meditação-em-movimento ao redor do preparo de uma bebida vegetal se transforma na cerimônia do chá japonesa, o chanoyu. Sob a tutela do xogum Ashikaga Yoshimasa, os ideais do chá importados da dinastia chinesa Song (de 960 a 1279) — que não usava mais o chá em barra fervido, mas sim o chá em pó batido (o chá em folhas e em infusão só viria na “terceira onda” durante a dinastia Ming, de 1368 a 1644) — saem da esfera religiosa-espiritual e o chaísmo se transforma em uma religião secular e estética.

A CONEXÃO ENTRE ESTÉTICA E ESPIRITUALIDADE, E O MEU CAMINHO INVERSO

Me lembro de que, nos anos de concepção da Simonde, quando precisava definir os valores que permeariam o conteúdo, foi definitivo para mim ler sobre a ética em Platão. Para o filósofo grego, o Bem e o Belo são causa-e-consequência, uma vez que o Belo é sempre — e só pode ser — uma manifestação do Bem.

Apesar de a beleza ter a capacidade de chamar nossa atenção quando ela surge em nossa frente, não há “Beleza” na vaidade, nos excessos, na vulgaridade, na superficialidade, nos comportamentos que prejudicam a si mesmo e aos outros. A beleza não se sustenta no tempo, pois não há Beleza fora do Bem e da Verdade, segundo Platão.

Se, antes, a minha paixão pela cerimônia do chá era puramente estética, pois sempre me fascinou a elegância dos gestos milimetricamente pensados e as sofisticadas simbologias que orbitam ao redor de cada elemento desse encontro-quase-banal-para-tomar-um-mero-chá, os fatos quase-insuportáveis que a vida me impôs nesse primeiro semestre de 2020 — a doença e morte da minha mãe em meio a uma pandemia, a crise financeira decorrente do quase desaparecimento do meu mercado, e a crise sanitária global que já matou centenas de milhares de pessoas e sabe-se lá que sequelas físicas e psicológicas ela deixará em cada um de nós — me fizeram voltar a estudar o lado filosófico do chá e, consequentemente, o budismo que lhe serviu de base. Se, antes, eu me deliciava com o chanoyu, o ritual da cerimônia do chá em si, o sofrimento me fez ir atrás do chadoo, o Caminho do Chá, que é um caminho de vida; assim como shodoo, o caminho da escrita; o bushidoo, o caminho do guerreiro; o kadoo, o caminho das flores…

OS VALORES POR TRÁS DA CERIMÔNIA DO CHÁ

Por conta do isolamento geográfico típico das ilhas, o Japão foi salvo duas vezes das tentativas de invasão do Império Mongol — e acabou se tornando um repositório das tradições da Ásia continental. Em 1282, a China foi devastada pelo regime impiedoso dos imperadores mongóis Yuen e o resultado foi a destruição da cultura da dinastia Song, que incluía a tradição do chá em pó batido.

A segunda onda do chá, como eram chamadas as folhas de chá secas e moídas em pedra até serem reduzidas a um pó fino (depois batido com o chasen, um delicado batedor de bambu fendido, já na tigela com água quente), acabou permanecendo viva apenas no Japão com o matcha, o chá verde em pó de cor fluorescente que é o componente central da cerimônia do chá.

Mas o Caminho do Chá vai muito além da bebida. Como uma religião-da-arte-da-vida que se opõe à falsidade, à avareza e ao egoísmo, entranhados na cerimônia do chá japonesa estão valores filosóficos práticos. A começar pela pureza que se manifesta através da imposição da higiene — existe uma arte no varrer, limpar, lavar, e esse é um dos primeiros requisitos de um teishu, o mestre do chá (você não vai encontrar um grão de pó nem no canto mais escuro por mais que a sala pareça um pouco envelhecida) — e do ichigo ichie, uma máxima conceitual composta por quatro ideogramas, que significa “apreciar a natureza irrepetível de cada momento” (uma das particularidades da língua japonesa: como escrever tanto com tão poucas letras?).

Ou seja, valorizar a unicidade e a efemeridade de cada encontro, porque ele sempre pode ser o último — o que me faz lembrar ainda da máxima de Heráclito, filósofo grego do século 5 a.C.: “nunca se pisa duas vezes no mesmo rio”, uma vez que as águas já terão corrido e você tampouco será o mesmo…

Outro valor fundamental do chaísmo vem do conceito zen de enxergar grandeza nos menores acontecimentos da vida — “aqueles incapazes de sentir em si mesmos a pequenez das coisas grandiosas tendem a ignorar nos outros a grandiosidade das pequenas coisas” —, de encontrar conforto nas coisas simples, efêmeras e verdadeiras, longe-bem-longe da vulgaridade do complexo, do grandioso e do supérfluo.

Esse espírito equitativo e amplificador fez com que o ritual do chá extrapolasse os castelos e passasse a fazer parte também da vida dos camponeses, que aprenderam a apreciar o preparo e o serviço do chá como anfitriões, a compor arranjos florais, a saudar as pedras e as águas, transformando, de uma forma bastante democrática, todos os adeptos do chadoo em aristocratas do bom gosto, como li em algum lugar e achei lindo.

Na parte estética, a compreensão da vida e a apreciação da natureza ainda formam as bases para a veneração do imperfeito, do assimétrico, do humilde — sem as idealizações que nos impedem de conquistar o que é possível e alcançável —, que se expressam não só através do desenho único de objetos como os chawan e da arrumação dos ambientes e da arquitetura, como também na percepção de si mesmo, do outro e do mundo… E como é desafiador apreciar a imperfeição, nossa e dos outros, além das “assimetrias” da vida.

A sensibilidade moral e estética — assim como o Bem e o Belo de Platão — é o caminho proposto pelo chadoo para que nos aproximemos daquilo que é verdadeiro e autêntico na existência. Por quê? Pois “apenas aquele que viveu com o belo é capaz de morrer belamente”.

Continua em breve…

as folhas de chá têm quase o dobro de cafeína dos grãos de café, mas como usamos muito mais grãos de café que folhas de chá para preparar as bebidas — e a água para o café precisa ser mais quente, o que aumenta a extração da cafeína —, o café na xícara acaba tendo ou a mesma quantidade de cafeína que os chás pretos ou muito mais cafeína que os chás verde e branco. 

São Paulo, agosto de 2020.

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