Quando estou viajando pela Europa ou pelos Estados Unidos, não me preocupo tanto em comer apenas ingredientes orgânicos. Isso porque as leis lá são rígidas na questão da segurança e da saúde da população. Situação completamente diferente do Brasil.

Agrotóxicos matam. E se você tem amor pelo animais, pela natureza, pelos vinhos e por sua saúde, deveria se preocupar. O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo: 5,2 kg de veneno agrícola por habitante por ano, sendo que 30% dessas substâncias, como a atrazina e o acefato, o quarto e quinto agrotóxicos mais usados por aqui, são proibidas nos Estados Unidos e na Europa. Vinte e cinco pessoas morrem por dia envenenadas por exposição aos pesticidas. Foram 85 mil óbitos entre 2007 e 2015.

Não só de agricultores mas também de moradores de comunidades próximas às plantações. Quem não morre, passa mal, fica doente, lota os prontos-socorros. Bebês nascem com má formação, homens e mulheres se tornam inférteis, desenvolvem doenças hormonais, depressão ou mal de Parkinson, terminam com câncer. Em locais de alta aplicação de pesticidas, traços de substâncias presentes em agrotóxicos são encontrados até mesmo no leite materno.

Agricultores portando máscaras como as que eram utilizadas contra armas químicas durante as duas grandes guerras pulverizando agrotóxicos na comida que vai para o nosso prato ou ainda aviões agrícolas derramando veneno em voos rasantes próximos a escolas são cenas que simplesmente não deveriam existir.

OS AGROTÓXICOS MATAM O MEIO AMBIENTE

Sem abelhas, a maior parte dos vegetais deixaria de existir, a quantidade de oxigênio na Terra diminuiria, assim como a oferta de alimentos, o que provocaria aumento dos preços.

Na natureza o estrago também é grande. Os pesticidas contaminam o ar, o solo e as águas subterrâneas que terminam em rios, lagos e poços artesianos dos quais dependem milhares de pessoas. E matam muito mais que as pragas (cada vez mais resistentes) que deveriam combater.

Exterminam abelhas e aves polinizadoras — 85% das plantas com flores das florestas e 70% da produção da comida do mundo dependem delas —, e também minhocas, fungos, bactérias e protozoários essenciais para o equilíbrio do ecossistema. Esses seres minúsculos que são responsáveis por decompor a matéria orgânica e reciclar elementos químicos vitais.

Os pesticidas que deveriam proteger a produção de alimentos garantindo o abastecimento global podem, em longo prazo, provocar a redução da oferta da comida.

Para nós, consumidores, os dados não são menos terríveis: não só nas frutas e verduras, mas também no leite da vaca que come a soja (o agrotóxico passa-pro-leite-que-passa-pra-gente por conta da bioacumulação) e nos produtos industrializados — tudo o que leva trigo, milho ou soja; do biscoito à pizza —, são sempre encontrados resíduos de agrotóxicos acima do limite máximo permitido. E ainda substâncias químicas não autorizadas por lei para o alimento pesquisado.

DIARIAMENTE ENVENENADOS, ATÉ BEBENDO UM COPO DE ÁGUA

Cheia de microplásticos e glifosato. Mas parece limpa.

Isso porque a legislação brasileira é super amiga da indústria dos agrotóxicos; tipo Best-Friends-Forever.

O limite máximo permitido do glifosato no Brasil para a soja é 200 vezes maior que na União Europeia. (Só para lembrar, 80% da soja plantada no Brasil é destinada para servir de ração para os animais de abate: apenas um dos exemplos de como a indústria da carne afeta os ecossistemas direta e indiretamente; leia mais clicando aqui.) E para a água, imagine que podem existir exorbitantes cinco mil vezes mais glifosato do que em qualquer país do continente europeu.

E o problema é que há muitos indícios de que o glifosato, necessário nas lavouras de soja transgênica, cause câncer em seres humanos. Da França à Califórnia, já existe um movimento para banir o uso do pesticida nas lavouras. A Monsanto, uma das maiores fabricantes de glifosato do mundo, já foi condenada por uma corte norte-americana a pagar US$ 290 milhões de indenização para um (único) funcionário que desenvolveu câncer por exposição ao agente químico. Mais cinco mil processos similares estão em andamento. Estamos sendo diariamente envenenados; pense nisso a próxima vez que estiver bebendo um mero copo de água.

Aí, você poderia pensar que um governo, em prol da saúde dos seus cidadãos e da proteção do meio ambiente, deveria ser extremamente responsável na hora de aprovar a entrada de novos agrotóxicos no país. Não é assim que funciona.

Em 2005, apenas 91 registros de agrotóxicos foram deferidos no Brasil. Em 2018, esse número saltou para 450. E, nos primeiros 100 dias de 2019, já foram aprovados 152 novos agrotóxicos, sendo 44 deles considerados com o nível de toxicidade máximo pela Organização Mundial da Saúde (apenas 18 foram classificados pela Anvisa como “pouco tóxicos”). As fabricantes multinacionais encontram no Brasil o mercado para vender os produtos proibidos em seus países-sede, com direito a isenção de impostos; somos o cemitério dos agrotóxicos.

Existe uma razão que favorece o uso dos agrotóxicos: o fato de sermos um país tropical sem inverno rigoroso para interromper o ciclo das pragas faz com que o Brasil seja ainda mais dependente dos pesticidas. A monocultura tampouco ajuda: além de desequilibrar o ecossistema e afetar a biodiversidade, ela fornece as condições perfeitas para a propagação de pragas. É todo um ciclo. A liberação do uso de sementes transgênicas foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem grandes quantidades de pesticidas.

ONDE ESTÃO OS CHEFS E A MÍDIA GASTRONÔMICA NESSA DISCUSSÃO?

O que mais me espanta nesse cenário é o silêncio dos chefs de restaurantes caros e da mídia gastronômica brasileira sobre o tema; a falta de cobrança, o silêncio de gente informada sobre os universos da alimentação e gastronomia; de gente que deveria assumir sua responsabilidade de educar a população para um mundo com mais respeito ao meio ambiente — e à saúde de seus clientes.

É da natureza que vem todos os elementos necessários para que nos mantenhamos vivos. Se continuarmos a destruir os ecossistemas com os agrotóxicos é a nossa própria existência que está ameaçada.

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