As imagens recentes de extensas áreas com pontos de fogo {veja na foto ao fim da matéria} nas parcelas dos vinhedos premiers e grands crus da Côte d’Or, departamento onde ficam duas das seis regiões viníferas da região da Bourgogne-Franche-Comté, a Côte de Nuits e a Côte de Beaune, e que produzem alguns dos vinhos mais caros do mundo, causam espanto e aflição em um primeiro momento. Mas essas milhares de fogueiras são planejadas por uma boa causa.

As mudanças climáticas têm feito com que a Borgonha venha tendo colheitas cada vez mais precoces e enfrentado um frio acima da média nos últimos anos, apesar de as principais uvas da região — a pinot noir, que cresce em lugares com temperatura média entre 14 ͦ C e 15 ͦ C, e a chardonnay, entre 14 ͦ C e 17 ͦ C — serem as variedades mais adaptadas ao clima frio (diferentemente de uvas como a viognier, branca, e cabernet sauvignon e nebbiolo, tintas, que estão no oposto da tabela, preferindo climas mais quentes; é bom lembrar que não se consegue plantar uvas em regiões cujas temperaturas não ultrapassem os 11 ͦ C). E  algumas horas de geada no começo da primavera podem provocar a perda de 50% a 100% de uma futura colheita.

Esse frágil botão guarda em si o potencial das folhas, das flores, das uvas, e de todo o vinho que você vai consumir um dia. Imagem: Reprodução internet.

Isso porque é nesta época do ano, quando a temperatura começa a subir depois do longo inverno europeu, que nascem os botões {bourgeon, em francês; bud, em inglês} que geram as folhas e as flores (os órgãos reprodutivos das plantas), que, por sua vez, dão as uvas.

POR QUE ACENDER MILHARES DE FOGUEIRAS NO MEIO DOS VINHEDOS?

No inverno, as folhas caem e, abaixo dos 10° C, as videiras adormecem e só voltam à vida com a chegada da primavera. Mas uma vez que os botões nascem, a volta do frio pode ser fatal. Imagem: Reprodução internet

Os botões são muito sensíveis às temperaturas negativas e às geadas. Se ao amanhecer o botão estiver envolto com uma camada de gelo, esse gelo vai atuar como uma lupa, fazendo com que a luz do Sol queime o botão. Se isso acontecer, o trabalho de meses desde a última colheita estará todo perdido.

Assim, os viticultores se organizam — centenas deles, muitos voluntários — para espalharem pequenos montes de palha entre as fileiras de videiras durante a madrugada, que são acendidas com velas antes do Sol nascer. O objetivo? Aumentar a temperatura do solo em dois ou três graus Celsius e produzir o máximo de fumaça possível de forma que a luz solar não queime esses preciosos botões.

A utilização desse método de proteção das videiras já era comum em regiões mais frias como Chablis, a mais setentrional região vinícola da Borgonha, e em Champagne, a mais setentrional das regiões vinícolas da França. Mas na Côte d’Or, mais ao Sul, ela vem se tornando necessária desde 2016.

Assim, não se assuste (como eu) da próxima vez que você vir uma imagem como abaixo, que eu vi no stories Instagram da Version Unique, e empresa que representa a região de Borgonha no Brasil.

Foto aérea feita com um drone, no último domingo, 15 de abril de 2019, por Vincent Dancer.

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