A experiência no cinema é assistir a um filme em que a personagem lê um livro. Com o livro Tony & Susan, de Austin Wright, de 1993, que serviu de inspiração para o tenso filme de Tom Ford, você lê um livro sobre uma mulher que lê um livro. E se a história de Tony, protagonista do livro-dentro-do-livro Nocturnal Animals, vai ter a força de trazer à tona conflitos na protagonista do livro Tony & Susan, Susan (até por que o livro-dentro-do-livro  foi escrito por seu ex-marido e inspirado nela), as histórias de ambos vão fazer o mesmo com você. São várias as camadas interconectadas de realidade, de tempo (passado, presente, expectativa), de ficção (Jake Gyllenhaal interpreta ao mesmo tempo o escritor e o protagonista de sua obra), que nos fazem refletir sobre como não temos qualquer controle sobre as fatalidades da vida e até mesmo sobre nossas escolhas. Uma história difícil de ser contada em imagens com um resultado muito bem sucedido.

Depois de sete anos da sua primeira incursão no cinema, se em A Single Man a sensação era a de que a estética sobressaía à história, podemos dizer que Ford evoluiu como cineasta (a direção, a produção e o roteiro são assinados por ele) depois de atingir o ápice em sua carreira como diretor criativo das maisons  Gucci e Yves Saint Laurent e se manter como um dos mais bem sucedidos estilistas até hoje (sua marca própria, lançada em 2005, conta hoje com mais de 100 lojas espalhadas pelas principais cidades do mundo). Animais Noturnos, que estreou no Festival de Veneza de 2016 já ganhando o prêmio do Grande Júri, é perturbador e a beleza das cenas — é impressionante o trabalho meticuloso de figurino, fotografia, cenografia; não tem absolutamente nada fora de lugar, como já era de se esperar — apenas reforça o drama da história: a de Susan, interpretada por Amy Adams, criada numa família rica e conservadora do faroeste americano, que descobre o amor juventude e se casa com um escritor romântico, de talento questionável e futuro incerto, que se desencanta ao longo do tempo preferindo uma vida mais estruturada, rica e conservadora (como a de seus pais, a quem tanto criticava), e que reencontraria seu ex-marido — e a si mesmo? — vinte anos depois através da sua obra. (A cena dos dois corpos nus e cândidos sobre um sofá de veludo carmim no meio da vegetação árida do centro-oeste norte-americano é de uma beleza de fazer prender a respiração.)

A história da galerista Susan (que vende mas não acredita mais na arte) está neste momento entrelaçada com a ficção do romance escrito por seu ex-marido, cujo manuscrito ele deixa na porta da casa dela no dia do vernissage  de uma exposição em sua galeria que rende uma das mais originais e provocadoras aberturas de filme do cinema. A história do livro de Edward é a alma de Susan; estuprada e morta.

Outra característica marcante de Ford — além de sua fixação por cenas em que os personagens estão em vasos sanitários — é o sex-appeal  de tudo o que ele faz. Se quase todos os homens (principalmente  os homens), dos atores Jake Gyllenhall, Armie Hammer e Aaron Taylor-Johnson (“enfeiado” com um cabelo estranho e unhas compridas) aos figurantes que fazem as vezes de mordomos, motoristas, garçons, são lindos e estão ora impecavelmente vestidos ora nus, as mulheres, da amiga-casada-com-um-gay à mãe de Susan são um um show  de styling; dos penteados aos acessórios. De qualquer forma, o universo plácido, cinza, cosmopolita, luxuoso e antisséptico de Susan é contrastado com o deserto e a violência que sofre Tony e, talvez por isso, os dois-filmes-em-um  Animais Noturnos seja uma obra a não perder. A estreia no Brasil acontece no dia 29 de dezembro de 2016.

nocturnal-animals-animais-noturnos-tom-ford-amy-adams-noir-1200-2Amy Adams é Susan Morrow. Imagem: Divulgaçãonocturnal-animals-animais-noturnos-tom-ford-amy-adams-noir-1200-3

“A gente escreve porque todo o resto morre, é para preservar aquilo que morre. A gente escreve porque o mundo é uma confusão desconexa, que não se consegue entender, a menos que se faça um mapa com as palavras. (…) a gente escreve porque lê, escreve a fim de refazer para uso próprio as histórias da nossa vida”.

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