A uma hora de carro de São Paulo, o Fasano Boa Vista é um hotel onde o distanciamento social sempre foi uma realidade. Imagem: Shoichi Iwashita

Matéria atualizada em 12 de fevereiro de 2021 por conta da segunda onda. Não adianta fazer malabarismos intelectuais: sem vacina, o isolamento social é a única maneira garantida de não contrair — e não disseminar — o novo coronavírus, apesar da flexibilização, da volta dos voos e da reabertura dos hotéis. Mas, agora entendendo melhor como funciona a transmissão do vírus, eu me sinto mais seguro de viajar para destinos onde seja possível o distanciamento social. Ou seja, destinos de natureza, praias desertas e em hotéis isolados e exclusivos com poucos hóspedes.

Só é preciso entender que os riscos existem; e eles são reais, principalmente no deslocamento (saiba mais abaixo). Mesmo que você seja jovem, contraia e não morra por causa do novo coronavírus, a Covid-19 pode deixar sequelas graves e irreversíveis até na mais saudável das pessoas. Capacidade pulmonar reduzida, problemas cardíacos e neurológicos (existe uma quantidade importante de jovens curados sofrendo derrames), e ainda algo não tão grave mas que eu temo enormemente: a perda do olfato e do paladar. (Tenho amigos e parentes que se curaram há mais de três meses e ainda não recuperaram totalmente os sentidos fundamentais para o prazer de beber e comer; e os médicos tampouco sabem quando ou se a recuperação será plena).

QUAIS OS RISCOS DE SE VIAJAR PARA O EXTERIOR AGORA? APENAS NÃO CONTRAIA COVID-19 DURANTE A VIAGEM

Viagens ao exterior são sempre mais complexas. Países como México e ilhas como Turks e Caicos, estão abertos para brasileiros sem qualquer restrição, bastando usar máscara em locais públicos. Outros 40 países abertos para brasileiros exigem teste PCR negativo para Covid-19 feito entre 48 e 72 horas antes do embarque. Só é importante saber que, se contrair Covid-19 no destino, você será proibido de voltar e terá de ficar em quarentena obrigatória por 14 dias arcando com todas as despesas de hospedagem, alimentação e remarcação de bilhete (as companhias aéreas têm sido flexíveis nesse ponto, felizmente).

Por isso, é imprescindível fazer um um seguro-viagem, mas um que cubra despesas com Covid-19. A maioria das apólices de seguro-viagem não oferece cobertura nem reembolsa perdas financeiras relacionadas a epidemias ou pandemias — e desde março de 2020, a Organização Mundial da Saúde decretou pandemia global por conta do novo coronavírus. Importante também é contratar o seguro por um período de 14 dias além da data da sua volta, pois se você contrair coronavírus no fim da viagem, terá de ficar de quarentena no destino e 1. o seguro não cobre as despesas dos dias além do contratado e 2. é proibido estender a duração do seguro uma vez que a viagem já tenha iniciado. Olha o perigo… 

Outra coisa imprescindível é fechar sua viagem com um bom agente de viagens — se quiser, pode até falar comigo, me mandando uma mensagem no Instagram @iwashitashoichi —, pois nesses tempos em que as regras de abertura e fechamento de fronteiras podem mudar de uma semana para outra, e voos e rotas são alterados/cancelados a qualquer momento, contar com uma assessoria especializada faz toda a diferença. No caso de fechamento de fronteiras e cancelamento de voos, no entanto, o único jeito será esperar pela repatriação organizada pelo governo brasileiro.

UMA SOLUÇÃO: VIAJAR PARA HOTÉIS ONDE O DISTANCIAMENTO SOCIAL SEMPRE FOI O PADRÃO

Muito espaço em todas as áreas comuns do hotel Fasano Boa Vista. Imagem: Shoichi Iwashita

Esqueça no momento os destinos urbanos e dê preferência para praias e destinos de natureza, viajando para pousadas e hotéis exclusivos, com bastante espaço para poucos hóspedes e muita ventilação natural; lugares onde o distanciamento social sempre foi uma realidade (e que nunca tiveram muita cobertura aqui na Simonde, pois sempre gostei mais de cidades e destinos com vida local…). Os hotéis têm seguido à risca as recomendações de limpeza da OMS, e o maior risco segue sendo o deslocamento.

A VULNERABILIDADE DE SE VIAJAR DE ÔNIBUS OU AVIÃO E O QUE FAZER PARA DIMINUIR OS RISCOS

Durante a pandemia eu fiz duas viagens de avião e quatro de ônibus. E se nos hotéis, os riscos são quase inexistentes por conta dos novos processos de limpeza e da nossa atenção, o maior risco de viajar durante a pandemia está no deslocamento em transportes de massa.

É horrível a sensação de vulnerabilidade ao estar em um avião/ônibus lotado (porque a oferta tem sido baixa), a 30 centímetros do rosto de um estranho irresponsável que decide ficar — e até roncar — com a máscara no queixo. Porque de nada adianta os mais avançados e rígidos protocolos de segurança adotados por companhias aéreas, hotéis e restaurantes se os viajantes não forem responsáveis. {Leia sobre a minha experiência voando durante a pandemia, clicando aqui.}

Por isso, se precisar ou decidir viajar de avião ou ônibus, prefira sempre voos diretos (quanto menos tempo de viagem, melhor) e tome as precauções a seguir:

1. Tente manter o máximo de distanciamento de outras pessoas, no mínimo, de dois metros. O que será impossível na hora de embarcar e desembarcar, durante a viagem, e de pegar as malas, por isso…;

2. … Use máscara — eu tenho usado duas: uma N95 e outra cirúrgica por cima — e óculos de proteção ou face shield o tempo todo, uma vez que já há estudos que apontam que o uso constante de máscara pode gerar exposição a cargas virais mais baixas e não letais do vírus, resultando em infecções mais leves. Nos aviões mais novos, eu confio nos filtros HEPA instalados no sistema de ar condicionado, que impedem a circulação de ácaros, fungos, bactérias e também do coronavírus, e no ar da cabine em fluxo-vertical-de-cima-para-baixo que é todo renovado a cada três minutos… Só que esse sistema só funciona com eficácia durante o voo, por isso não tire a máscara, nem um segundo, enquanto o avião não atingir os 10 mil pés. Já no ônibus, eu só tomava água durante as paradas, quando eu podia ficar ao ar livre e distante das pessoas — não tirava a máscara de jeito nenhum dentro do ônibus;

3. Leve seu kit-higienização-e-conforto: álcool em gel 70% em frasco de até 100 ml (nos voos domésticos, o frasco pode ter até 500ml, mas álcool líquido é terminantemente proibido no interior das aeronaves); hidratante (a umidade relativa do ar muito baixa dos aviões é ótima para impedir a sobrevivência dos vírus, mas deixa as mãos ainda mais secas depois de tanto álcool); lenços de papel  (sempre úteis); e lenços umedecidos antissépticos para higienizar todas as áreas de contato assim que você chegar ao assento. Apesar de as últimas pesquisas informarem que as chances de infecção por coronavírus são bem baixas via contato com superfícies infectadas, tanto no avião quanto no ônibus, limpo todas as superfícies sólidas: braços da poltrona, a mesa, o monitor, o cinto de segurança, o controle de ar condicionado, todos os botões, e os vidros, se eu estiver na janela. Porque fala-se bastante de higiene, mas as empresas não tem como fazer uma limpeza profunda entre uma viagem e outra nas rotas domésticas, quando passageiros embarcam-desembarcam-embarcam várias vezes até que o avião ou o ônibus vá para a limpeza;

4. Junto com o kit, carregue junto mais duas bolsinhas: uma com máscaras novas ou limpas e outra para guardar as máscaras usadas (o ideal é sempre trocá-las a cada duas ou três horas, ou conforme elas ficarem úmidas);

5. Limpe frequentemente o seu celular com álcool 70% ou lenço umedecido antisséptico porque a gente nem percebe que pode estar pegando nele com as mãos sujas; e

6. Em hipótese alguma, coloque as mãos no rosto. Ao ter de ajustar ou colocar ou tirar a máscara, higienize as mãos com álcool 70% e a manipule apenas pelas tiras.

Se você seguir essas recomendações com disciplina, é pouquíssimo provável que você contraia qualquer doença viral.

A MELHOR OPÇÃO É VIAJAR DE CARRO, MAS LEVE COMIDA DE CASA

Viajar de carro é o jeito mais seguro. Você limpa seu carro (e sabe que ele está limpo e livre de vírus), está viajando apenas com sua família ou pessoas próximas. Só não se esqueça de levar bebida e comida. A maioria dos restaurantes de estrada segue com seus buffets, uma atividade considerada de muito alto risco na transmissão do novo coronavírus (eles disponibilizam álcool em gel e luvas descartáveis, mas não há qualquer controle). Fazendo ou encomendando seus lanches, você comerá muito melhor e de forma mais saudável, segura e sustentável, sem gerar tanto lixo plástico.

ESCOLHENDO UM HOTEL RESPONSÁVEL

Assim como há viajantes negacionistas — ou que se sentem seguros em desrespeitar as regras porque já contraíram, estão com o IgG positivo e acham que estão imunes (apesar de já existirem casos de reinfecção pelo novo coronavírus) –, também há hotéis que não vêm adotando as práticas mais seguras, como, por exemplo, decidindo por manter os buffets de café da manhã.

Por isso, antes de fazer sua reserva, é importante entrar em contato com o hotel e se informar sobre sua operação. Estão servindo café da manhã à la carte ou no quarto? É possível fazer check-in e check-out online? Qual é política de cancelamento e mudança da data da reserva e quais os custos? Estão operando com a capacidade máxima? O spa está aberto? Como estão funcionando a academia e as piscinas? E importante-importante: se eu contrair coronavírus durante a viagem, qual é o procedimento do hotel e do destino?! Tem hotel que expulsa o hóspede infectado…

PROGRAMANDO VIAGENS PARA 2021

As vacinas, felizmente, já são uma realidade, mas para que o mundo esteja protegido e a gente consiga voltar a viajar como até 2019 ainda vai levar um tempo. Por isso, caso você esteja planejando uma viagem para o próximo ano, o mais importante ao fechar passagens e hotéis neste momento é entender com bastante atenção os custos em caso de cancelamento e mudança de data, caso a viagem seja impossibilitada por algum fator que está acima da nossa vontade.

A gente não sabe quando termina essa pandemia e se outras virão (os cientistas dizem que sim). Talvez precisemos aprender a navegar esse novo mundo. Se assim for, que seja com responsabilidade.

São Paulo, 17 de setembro de 2020.

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