Festas nababescas. Em 1976, Wilza Carla chegou à Festa da Broadway na Medieval vestida de odalisca sobre uma elefoa. Repito: a atriz Wilza Carla, vestida de odalisca, desceu a Rua Augusta — não de carro ou ônibus ou carruagem ou cavalo, mas — em cima de um ELEFANTE para chegar a uma festa. Darby Daniel, fantasiado de Branca de Neve, era carregado por sete anões dentro de um caixão de vidro enquanto um príncipe sobre um cavalo branco o aguardava na porta da boate. Já Kaká di Polly não precisava de grandes eventos para suas chegadas triunfais. Num carro conversível tomando champagne, jogando seu casaco de pele branco sobre uma poça de água para pisar no chão e não molhar seu sapato ou dentro do baú de um caminhão da Granero vestida de borboleta, o importante era chamar a atenção. Não havia limites para os excessos, estamos na era Disco. E era assim que as bichas chegavam à boate. Bicha poderosa era aquela que parava tudo.

Muito mudou na noite gay  de lá pra cá. Na Medieval, garçons usavam luvas e candelabros decoravam as mesas. Foi a primeira grande boate gay de São Paulo, inaugurada em 1971. Os shows, inspirados nos cabarés parisienses e na Broadway, atraía a alta sociedade paulistana e gente famosa. Diferentemente dos shows do Lido e do Moulin Rouge, as estrelas do palco da Medieval não eram mulheres, mas travestis e transformistas. No Village, os copos eram de cristal e o café da manhã era servido, às 6h da manhã, em bandejas de prata. Os gays se vestiam pra sair à noite: camisas, relógios e sapatos que “deslizavam” na pista eram o look du jour. Tudo acontecia no Centro da cidade. E numa era pré-internet, essas casas tinham um significado muito maior na vida de gays e lésbicas: eram local de identificação, de socialização, de segurança e, principalmente, de liberdade (O Brasil estava sob a ditadura e sair à noite para um lugar abertamente gay era um gesto muito mais transgressor do que hoje: prisões arbitrárias de gays eram comuns; transformistas não podiam andar com perucas na rua para não serem presas, tinham de carregá-las na mão).

Da Medieval à Corintho, inaugurada em 1985, o filme São Paulo em Hi-Fi, do cineasta Lufe Steffen, é um emocionante testemunho da noite ou, mesmo, da vida gay paulistana das décadas de 1960 a 1980, período que foi marcado por fases tão distintas como o glamour, o exagero e a liberação sexual (personificadas em figuras como Ney Matogrosso, Dzi Croquettes, David Bowie), até a chegada da AIDS no fim dos anos 1980 que marginalizou a comunidade gay de uma maneira muito triste e cruel. “Só os gays tinham, só os gays transmitiam”, em um dos depoimentos do filme. O preconceito ressurgiria em nível máximo.

Tudo estava começando: além da primeira boate (na década de 1960 não existia boate gay em São Paulo, olha só) foi nesta época que surgiram os primeiros grupos organizados para discutir os direitos gays; foi também quando o Celso Curi começou sua Coluna do Meio (no jornal Última Hora, sem pseudônimo, o que lhe rendeu um processo do Ministério Público por “união de seres anormais” por causa do seu Correio Elegante, em que gays  mandavam cartas para conhecerem outros gays); quando surgiu o jornal O Lampião da Esquina, um jornal tabloide assumidamente homossexual, que era distribuído do Amapá ao Rio Grande do Sul...

Outro ponto interessante do filme é ver a imagem dos entrevistados hoje e nas fotos antigas, novinhos, se divertindo, quando vivemos em uma época em que — não apenas no mundo gay — a juventude, o corpo, a imagem são os principais valores que cultivamos. “Éramos jovens, sabíamos dançar, nos vestíamos bem e achávamos que não morreríamos nunca”, nas palavras do jornalista Mario Mendes.

São muitas as cenas de shows da época e fotos dos acervos dos personagens que deram seus depoimentos. Além de um importante registro histórico da comunidade LGBT paulistana, São Paulo em Hi-Fi é um interessante recorte da história da cidade. De uma época em que o glamour, o sonho e a fantasia, pelo menos no mundo gay, eram realidade.