Difícil não se lembrar dos papéis anteriores dos dois protagonistas de Samba: Omar Sy, que, numa continuação de Intouchables (Os Intocáveis) segue no papel de imigrante ilegal em território francês que, fofo que é, conquista os corações gauleses, e Charlotte Gainsbourg, que já na cena em que ela olha o negro alto e forte sem camisa (e também na cena final, na sala de reuniões), simplesmente NÃO DEIXA a gente não se lembrar dela como a ninfomaníaca depressiva que, no filme de Von Trier, protagonizou uma cena explícita de dupla penetração com dois negros — também africanos, também fortes (entre outros atributos) — na cena mais engraçada do filme. Se você conseguir ultrapassar essa barreira de memória recente, o filme dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano (os mesmos de Intouchables) vale por mostrar uma Paris quase turística (tem o Charles de Gaulle — e vários A380 da Air France —, tem La Defénse, a Torre Eiffel, o Canal Saint Martin, os telhados e suas chaminés, um hotel de luxo com restaurante estrelado) mas por outro ponto de vista: o de Barbès, a região do 18éme de Montmartre, do Sacré-Coeur, de Pigalle, bairro negro dos imigrantes da África do Norte, muitos ilegais, que, apesar das dificuldades de conseguirem legalizar sua permanência no país (e dos problemas com as autoridades), estão bastante integrados no mercado de trabalho francês.

O filme francês conta a história da relação entre o senegalês Samba (que corre o risco de ser deportado depois de dez anos de trabalho na França) e Alice, a assistente social principiante que passa a se dedicar ao auxílio de imigrantes ilegais depois de sofrer um burnout  por causa do excesso de trabalho numa grande multinacional, passando pelos conflitos morais e de identidade — e a falta de liberdade — que afetam esses milhares de imigrantes não só na França mas em todo o mundo, flerta com o Brasil não só no nome do filme, mas também através de uma situação em que ser brasileiro é bom “porque eles se dão melhor no trabalho e no amor” e da excelente trilha sonora que conta com músicas de Gilberto Gil e Jorge Benjor.

A cena que abre o filme é incrível: uma festa luxuosamente coreografada é mostrada em seus bastidores. A câmera sai do salão ricamente decorado e mostra toda a estrutura necessária para que aquilo aconteça, num único plano-sequência. Dos garçons elegantes carregando taças e garrafas de champagne  aos chefs  finalizando pratos elaborados, a câmera segue a hierarquia da cozinha chegando naqueles cuja única função, sem qualquer prazer ou criatividade, é lavar a louça suja. É lá que está o Samba. E o que seria de nossas festas sem ele?

Samba é um filme francês com capacidade para agradar também ao público que não é fã daquele cinema mais tradicional, denso, cheio de diálogos existenciais. O problema da imigração é tratado de forma reduzida, meio romantizado, em que os estrangeiros são os simpáticos, fofos, cativantes em suas diferenças (talvez importante em épocas quando a Europa se torna cada vez mais conservadora e intolerante quanto ao tema?), e as autoridades, o Estado, os vilões; tem uma história de amor; e tem até um fim. É um filme francês que poderia ser americano.

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