Sempre que vou a festas infantis, acho assustadora a quantidade de presentes que a criança ganha, a euforia que aquelas dezenas de pacotes geram, o espaço que aquilo tudo deve tomar em casa, e, ano após ano, como tudo é descartado em tão pouco tempo, se transformando em lixo.

Conheço gente que a cada visita a uma família com crianças leva presentes para elas. Sem contar as roupas e brinquedos que os pais, os padrinhos, os tios e avós compram, será que esse estilo de vida consumista e acumulativo não é tóxico também para as relações humanas e para a saúde mental e emocional de um indivíduo ainda em formação?

Da mesma forma, sempre achei particulares essas listas de presentes em casamentos. É como condicionar a presença de uma pessoa querida em um momento importante da vida a algo em troca. E se a pessoa não estiver em condições no momento de comprar um presente? E se as opções mais baratas da lista já estiverem se esgotado? A pessoa pode ir à festa sem dar um presente? É impossível saber a situação de cada um no momento do convite; acho sempre constrangedor. (E agora está na moda essas festas de casamento fora da cidade que obrigam os convidados a não só darem presente como também arcar com a disposição, o tempo de planejamento e deslocamento — o pior — e os custos da viagem: uma festa altamente excludente a não ser que os noivos só tenham amigos e conhecidos com as mesmas condições financeiras e de saúde).

A OBRIGAÇÃO SOCIAL DE PRESENTEAR

Nesses momentos de infinita oferta de produtos, interesses e estilos pessoais cada vez mais específicos e quando todo mundo já tem tudo, nada me incomoda mais que essa obrigação social de dar — e receber — presentes, principalmente em datas como Natal e aniversários. Tem o tempo dedicado a pensar o que comprar, a navegar os sites procurando por ideias, a ida até a loja, a dúvida, o envio, o dinheiro gasto. Para nunca ter a certeza de que o presenteado realmente gostou.

Do meu lado, a mesma coisa: apesar do carinho e da generosidade, nunca me sinto à vontade com a ideia de alguém gastando tempo, preocupação e dinheiro para me presentear. Porque, a grande maioria das vezes, esses presentes servem apenas para ocupar espaço antes de pararem na casa de outras pessoas, antes de serem doadas para instituições de caridade, ou mesmo, indo para o lixo (sem falar no tempo administrando tudo isso).

Nas raríssimas vezes que comemorei aniversário, a frase no convite “o presente é a sua presença” sempre esteve em evidência, já que para mim o encontro sempre foi o mais importante. Quer maior presente que alguém que você quer bem se programar, tomar banho, se vestir para vir até você e comemorar o seu aniversário?

Assim, que tal substituir os presentes-coisas por presentes-momentos-juntos, seja na festa ou em um café, um jantar regados a muito vinho e conversa? Assim, simples? Sem os dilemas da escolha, sem perda de tempo, sem ocupar espaço, sem gerar lixo? Seria tão mais fácil para todo mundo…

NÃO ADIANTA SEPARAR O LIXO PARA RECICLAR. PRECISAMOS COMPRAR MENOS E MELHOR

Uma pesquisa recente revelou que 56% dos norte-americanos admitem ter recebido pelo menos um presente de que não gostaram naquele ano. O resultado: US$ 13 bilhões de dólares gastos em 142 milhões de presentes que não cumpriram com sua função.

Aí, você soma as meias e as blusinhas de gosto duvidoso que ganha, com as roupas, tênis e sapatos que compra, enjoa e joga fora, e chegamos ao número de 11 milhões de toneladas de roupas e sapatos descartados anualmente nos lixões. Apenas nos Estados Unidos e sem contar as roupas que foram doadas ou reaproveitadas. São duas vezes o peso da pirâmide de Quéops, uma das mais pesadas construções feitas pelo homem em toda a história (acho que só perde para a Muralha da China). Por ano.

E considerando o fato de que nem 30% do lixo reciclável é reciclado, isso nos países ricos, eu acho que temos um grande problema ambiental.

O JAPÃO PODE NOS ENSINAR ALGUMA COISA

A cultura do omiyage é ainda mais opressora no Japão (e se alguém, qualquer pessoa, te der alguma coisa, você está obrigado a presentear de volta; um horror).

Se você for a uma reunião em uma cidade vizinha, é preciso que você traga algo para seus colegas de trabalho (será um faux pas se você não trouxer pois eles estarão esperando). Tem até um meme que diz que japoneses quando viajam passam 15 minutos tirando fotos do destino e 45 minutos comprando presentes para familiares, amigos e colegas.

Mas lá é bem mais simples. Geralmente o presente são bolinhos, biscoitos e doces típicos da região (e até coisas banais como produtos de limpeza, molho de soja, óleo) embalados linda e individualmente, que você encontra em qualquer konbini (lojas de conveniência), estações de trem e lojas de rua. (E, lá, reciclagem é coisa séria, já que o Japão não tem espaço para aterros sanitários.)

E tenho achado cada vez mais conveniente essa tradição de dar comida como presente. Tenho adorado dar e ganhar grãos incríveis de café, massas e pães artesanais (sem tranqueiras entre os ingredientes, claro), geleias, vinhos (já até ganhei produtos de limpeza biodegradáveis e amei). Sem sacos e embalagens plásticas, então, é a perfeição.

A gente se lembra da generosidade do presenteador naquele momento de prazer, enche a barriguinha de coisas gostosas, guarda na memória e não entulha a casa de coisas. Sem falar que comida é biodegradável, né?

{A imagem que ilustra esse post, fotografada em Nova York, uma das cidades que mais gera lixo per capita no mundo, é do Kadir van Lohuizen, fotógrafo que percorreu seis cidades do mundo retratando o lixo para uma matéria do Washington Post.}

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