Baseado na obra distópica de George Orwell de 1949, 1984 dirigido por Michael Radford — e lançado em 1984 — é um dos títulos da Criterion Collection, que agora tem uma plataforma de filmes por streaming, o Criterion Channel. Imagem: Reprodução

Acabada a quarentena, mas ainda sem uma vacina para o novo coronavírus circulando por aí, me pergunto quantos de nós se sentirão confortáveis em viajar de avião em trechos domésticos lotados, frequentar balcões de restaurantes japoneses, teatros, cinemas, casas noturnas; lugares impossíveis de manter distanciamento social. Porque, depois de meses em casa, no controle de como limpamos e o que comemos (estou sem empregada e sem pedir comida), conscientes da facilidade de transmissão e possibilidade de agravamento da doença em pessoas de qualquer idade, confiaremos no sistema de higiene de abordagem-microscópica-contra-os-vírus de estabelecimentos comerciais de alta circulação de pessoas, incluindo hotéis e restaurantes?

SERÁ O FIM DO CINEMA COMO O CONHECEMOS?

Sobre a sétima arte especificamente, a quarentena foi responsável por uma mudança significativa de comportamento. Se na adolescência eu comprava muitos filmes nas viagens, dos clássicos aos independentes que nunca seriam distribuídos no Brasil (ainda em VHS; me lembro de ter quatro aparelhos para conseguir reproduzir os formatos de diferentes países, até no formato Betamax para filmes japoneses), e nos últimos anos dependendo de exibições em cinematecas, festivais e instituições culturais para conhecer mais a obra de determinado diretor ou rever um filme, essa quarentena me fez descobrir que tem muita, mas muita coisa boa no modelo de cinema por streaming. E não é no Netflix.

Apesar da magia da grande tela dos cinemas (que, preciso dizer, funciona cada vez melhor para filmes comerciais de ação, com seus muitos efeitos e pouco roteiro), eu me vi bastante confortável com a ideia de adentrar os universos desses diretores que fizeram — e fazem — história, sem precisar me deslocar, sem precisar conviver com os mal educados de sempre e sem precisar gastar R$ 50 na pipoca, podendo ainda rever cenas, maratonar um diretor ou o cinema de um país não muito conhecido… com as pernas esticadas, podendo fazer minhas anotações, acompanhado de bons vinhos comprados sem as margens enormes que bares e restaurantes nos cobram.

Na seleção dos serviços de streaming a seguir, você vai encontrar o melhor do cinema mundial, em formatos de assinatura ou compra-ou-aluguel por filme (amo esse modelo on demand pois se paga pelo que se usa de fato), com um catálogo tão incrível que você vai precisar de anos para zerar a lista. E dá para assistir tudo pela TV, pelo computador, pelo celular.

MUBI [Assinatura e on demand, disponível no Brasil]

Meu Jantar Com André (My dinner with André), filme genial de Louis Malle em que os atores interpretam a si mesmos, é um dos títulos em cartaz no Mubi em maio de 2020. Imagem: Reprodução

A Mubi não é só um serviço de streaming de filmes cult dos mais variados gêneros — do horror ao existencial passando pelo sci-fi — mas também é uma comunidade global de cinéfilos, que deixam interessantes impressões nas caixas de avaliação. A mais robusta das plataformas presentes no Brasil, o Mubi funciona como um cinema: todos os dias um filme entra em cartaz, podendo ser assistido por trinta dias. Pelo preço da assinatura de R$ 27,90 por mês (ou R$ 238 por ano), você tem à disposição trinta filmes — a grande maioria em alta definição — listados na seção “Em exibição”, em ordem decrescente de data (no fim da página estará a descrição do filme que sai de cartaz amanhã). E aí, você tem ainda a área “Locações”, onde você consegue alugar individualmente centenas de filmes de todas as épocas e de todo o mundo — da Índia à Sérvia, passando pelos grandes diretores franceses, norte-americanos, japoneses —, pagando a partir de R$ 12,90 por filme. É incrível e dá para experimentar por sete dias gratuitamente. {Para assinar o Mubi, é só clicar aqui.}

BELAS ARTES À LA CARTE [Assinatura, serviço brasileiro]

Um dos maiores nomes do cinema mundial (admirado por grandes nomes como Bergman e Kurosawa), o russo Andrei Tarkovsky, tem três de seus sete filmes disponíveis no Belas Artes À La Carte. Na foto, uma das cenas mais emblemáticas da jornada Stalker, de 1979. Imagem: Divulgação.

Conheci o Belas Artes À La Carte quando eles gentilmente deixaram todo o catálogo aberto durante o começo da quarentena. E que surpresa boa foi conhecer essa plataforma de streaming brasileira hospedada no Vimeo que é o desdobramento virtual de um dos nossos cinemas preferidos em São Paulo. Além da ótima seleção de filmes — aproveitei a quarentena para rever os filme do Kurosawa e do Tarkovsky (eles têm Andrei Rublev, Stalker e Solaris), mas tem também Lang, Visconti, Godard —, eles ainda produzem pequenos vídeos comentando por que assistir a cada filme. Assim como o Mubi, dá também para alugar filmes que ainda não estrearam nos cinemas na seção Super Lançamentos (mas são bem poucos, um ou dois). O preço é outro destaque: são apenas R$ 9,90 por mês ou R$ 108,90 por ano. Já os filmes on demand custam a partir de R$ 12,90. {Para assinar o Petra Belas Artes À La Carte, é só clicar aqui.}

CRITERION CHANNEL [Assinatura, não disponível no Brasil]

O mais famoso dos filmes de Akira Kurosawa, Os Sete Samurai (Shichinin no Samurai), de 1954, nos leva de volta ao Japão feudal do século 16 e é um dos milhares de títulos impecáveis da Criterion Collection, disponível também no serviço de streaming Criterion Channel. Imagem: Divulgação.

Eu cresci comprando os filmes da Criterion Collection, com seu catálogo impressionante formado pela cinematografia dos maiores diretores de cinema da história: Chaplin, Fellini, Hitchcock, Lynch, Varsa, Mizoguchi, todos. E o que transformou a Criterion no que ela é hoje, é que, além de ser responsável pelo processo de restauração e digitalização de cada filme — começaram com Cidadão Kane e King Kong, lá em 1984 —, eles sempre produziram um rico material complementar para aprofundar o conhecimento dos amantes de cinema (com a participação de outros grandes diretores), pensando cada filme como um novo produto, não medindo esforços para garantir a satisfação estética dos mais exigentes cinéfilos do mundo (o que obviamente influenciava os preços). A Criterion Channel só está disponível por enquanto no Canadá e nos Estados Unidos (se você estiver no Brasil, vai precisar contratar um VPN para conseguir assinar o serviço com um IP local desses países) e custa US$ 11 por mês com direito a 14 dias gratuitos para testar a plataforma. São mais de dois mil filmes disponíveis e muitos materiais extras como uma série sobre a história do cinema. Ah, os DVDs e os Blu-Rays seguem disponíveis para venda no site da Criterion Collection. {Para assinar o Criterion Channel, é só clicar aqui.}

TELECINE PLAY [Assinatura, serviço brasileiro]

Anita Ekberg, a atriz sueca que ficou imortalizada em La Dolce Vita, o filme antológico de Federico Fellini, gravado em Roma em 1960. Imagem: Reprodução

Se quando eu assinava a TV a cabo, um dos meus canais favoritos era o Telecine Cult, um dos seis canais de filmes dessa joint-venture do Grupo Globo com vários estúdios de cinema (Universal, MGM, Paramount, Disney), o Telecine Play é a versão do serviço através do streaming de filmes. Com mais de 2000 filmes e títulos lançados todos os dias, o catálogo do Telecine Play está cheio de joias do cinema: tem o Sétimo Selo de Bergman, Sunset Boulevard do Wilder, La Dolce Vita e 8 ½ do Fellini, e vários filmes do Pedro Almodóvar, de Woody Allen, de Alfred Hitchcock. Para acertar na escolha, o destino na plataforma é a lista dos Top 100 filmes na seção Cinelists, e as subseções Dramas Cult e Dramas Independentes na seção Gêneros > Drama, onde você encontra Ninfomaníaca (1 e 2), Bacurau, A Favorita, Dunkirk, Call Me By Your Name, entre outros bons filmes. O preço da assinatura é de R$ 37,90 por mês para até três dispositivos simultâneos, com o oferecimento de 30 dias grátis. {Para assinar o Telecine Play, é só clicar aqui.}

GOOGLE PLAY [On demand com sua conta do Google, disponível no Brasil]

No Google Play estão filmes recém saídos dos cinemas, como é O Escândalo (Bombshell), de 2019. Nele, Charlize Theron,  Nicole Kidman e Margot Robbie interpretam as âncoras do canal conservador Fox News que foram assediadas sexualmente pelo CEO Roger Ailes. Imagem: Divulgação

Para filmes que estiveram recentemente nos cinemas, uma boa opção por permitir a transmissão dos filmes em resolução 4K é o Google Play. Com filmes que custam entre R$ 2,90 e R$ 19,90 para aluguel (assistir o filme em até 30 dias a partir da compra, e em até 48 horas ao apertar o botão play), o catálogo conta já com filmes ganhadores do último Oscar (Coringa, Parasita, JoJo Rabbit), filmes brasileiros e franceses, e tem também alguns clássicos como Um Estranho no Ninho (Milos Forman), Casablanca (Michael Curtiz), Sunset Boulevard (Billy Wilder), Laranja Mecânica (Stanley Kubrick). Por ele, acabei de assistir o filme-denúncia Bombshell (foto acima), a história real do processo de assédio sexual das âncoras da Fox News que aconteceu em 2016, com Charlize Theron e Nicole Kidman. {Para assistir a um filme pelo Google Play, é só clicar aqui.}

NETFLIX [Assinatura, disponível no Brasil]

Um dos meus filmes favoritos da vida (esse eu também tenho em DVD), Os Vestígios do Dia (The Remains of the Day), de 1993, é baseado no romance de Kazuo Ishiguro. Vencedor de oito Oscars e com uma atuação colossal de Anthony Hopkins, na foto com Emma Thompson, é uma das joias que pode ser assistida na Netflix. Imagem: Divulgação.

A mais popular plataforma de streaming de séries e filmes no Brasil, um dos trunfos da Netflix, além do catálogo atualizados todos os meses, é o investimento em produção próprias de séries e filmes premiados como The Crown, Black Mirror, Orange Is The New Black, e Dois Papas e O Irlandês, filmaço do Martin Scorsese. Além de muitos documentários e séries interessantes sobre gastronomia, música, consumo e estilo de vida, o Netflix também possui algumas joias do cinema (que a gente ama) para você assistir: O Poderoso Chefão, Vestígios do Dia, I, Daniel Blake, Atomic Blonde {leia a nossa crítica clicando aqui}, Jackie, 12 Anos de Escravidão, Aquarius. Os planos custam entre R$ 21,90 a R$ 45,90 por mês. {Para assinar o Netflix, clique aqui.}

São Paulo, abril de 2020. 

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