Esse é o manifesto Simonde de hospedagem. Assim como sou apaixonado por aeroportos (faço questão de levar e buscar amigos e parentes só pra ter o pretexto), amo lobbies de hotel, e filmes que têm eles como cenários: de Morte em Veneza a Lost in Traslation, passando por Week-End at the Waldorf, Grand Hotel e Uma Linda Mulher.

É fascinante, nos lobbies de hotéis com localização central, observar pessoas de diferentes estilos, de todos os cantos do mundo, indo e vindo. Homens e mulheres em papos de negócio, madames com seus cachorrinhos de estimação almoçando com amigas, famílias decidindo com o concierge a programação dos próximos dias, casais apaixonados que só enxergam um ao outro.

Melhor ainda se o hotel tiver restaurante estrelado e bar animado, frequentados não só pelos hóspedes mas também pelos locais (e mesmo que meu hotel seja incrível, nunca deixo de frequentar os chás, os bares e os restaurantes dos concorrentes… simplesmente porque estão em hotéis).

HOTÉIS DE LUXO?

Só que existe um problema hoje; sem sempre visível pelos leigos: 1. Redes tradicionais de hotelaria de luxo têm sido compradas por grandes conglomerados de capital aberto e vivem a pressão de resultados crescentes, agressivos e constantes, e de abrir uma enorme quantidade de novos endereços, em diferentes pontos do mundo, em curtíssimo espaço de tempo (como manter a excelência, autenticidade e a alma no atendimento ao cliente?); e 2. a globalização (executivos viajando cada vez mais para administrar seus negócios planetários); o aumento da desigualdade social nas últimas décadas (ricos ficando incrivelmente mais ricos); a facilidade no deslocamento (ótimos aeroportos e companhias aéreas conectando o mundo, aviões modernos e sistemas cada vez mais acessíveis de compartilhamento de aeronaves particulares); e a necessidade wanderlust de viajar (é cada vez mais comum encontrar pessoas que preferem viajar a trocar de carro ou se mudar para uma casa maior), fizeram surgir muitas novas redes de hotéis de luxo para surfar nesse filão altamente lucrativo… Mas que nem sempre — quase nunca, eu diria — entregam aquilo o que comunicam em suas lindas brochuras e canais nas redes sociais.

Hoje, hotéis de uma mesma rede famosa, que pertencem às mesmas associações de hotelaria de luxo, e que compartilham a mesma categoria de preço e imagem perante o público-alvo podem entregar experências completamente diferentes; e algumas vezes, decepcionantes. E, esse manifesto é o exercício de imaginar o que um hotel tem de ter — ainda que muitos critérios sejam subjetivos — para fazer com que a gente se apaixone por ele. Assim, sinta-se livre em nos contar sua opinião e relatar suas experiências.

BONS HOTÉIS ESTÃO NA MELHOR LOCALIZAÇÃO. SEMPRE

Localização, localização, localização. O hotel pode ter a melhor estrutura do universo, mas se ele não for o próprio destino — no caso de resorts, quando você já viaja com a intenção de não sair de lá —, não adianta ser incrível e ter a assinatura do designer X, se você tiver de gastar quarenta minutos para chegar aos cafés, restaurantes, lojas e atrações culturais mais interessantes do destino; o que é bem fácil de acontecer nos grandes centros urbanos (e você sempre saberá, em cada cidade Simonde, quais são os bairros de que mais gostamos e por quê). Por isso, a região, o bairro, a rua são variáveis fundamentais.

Viajar de avião para chegar ao destino já tem um enorme impacto ambiental {clique aqui para saber como se tornar um viajante mais responsável}, por isso, em vez de carros particulares, prefiro sempre fazer as coisas a pé ou de bicicleta, frequentar os lugares do bairro — e hotéis bons estão sempre nos bairros mais interessantes — e saber que, se eu quiser explorar a cidade, o acesso pelo transporte público é fácil, rápido e prático, sem precisar fazer 32 baldeações.

Se o hotel tiver uma estação de metrô a 50 metros em uma das linhas principais da cidade vai ser incrível. Se tiver uma saída de estação de metrô no próprio prédio como no Mandarin Oriental de Tóquio ou no Shangri-La de Londres, aí, é perfeito; é o luxo de se chegar ao metrô seco, mesmo em um dia de chuva. É lindo também quando o hotel tem um café, uma padaria ou uma livraria como vizinhas.

A POBREZA DE SE COBRAR WI-FI E CÁPSULA DE CAFÉ

Acesso à internet banda larga e sem fio em todo o hotel e nos quartos é uma necessidade básica. É como água corrente no banheiro para escovar dentes, tomar banho e dar descarga. Se até o Starbucks disponibiliza internet sem fio de graça para qualquer cliente, é bem irritante estar num hotel cuja diária custa 800 euros e ter de pagar 15, 20 dinheiros por dia (!) para ter acesso à rede. Por que não incluir o custo na diária do hotel? É muito mais simpático. Essa cobrança tende a desaparecer, mas ainda tem muito hotel legal cobrando caro pela internet. Uma prática comum nas grandes redes é fazer com que o hóspede crie um perfil no programa de fidelidade da rede para oferecer o acesso gratuito ou, então, oferecer duas velocidades, uma gratuita e outra paga para quem precisar de muita banda, o que é compreensível.

BICICLETAS

Nas cidades planas e que possuem boa estrutura para as bicicletas nas ruas (como a Holanda e a Alemanha, onde os carros também respeitam os ciclistas) a gente adora quando o hotel coloca bicicletas à disposição (se as bikes tiverem cestas grandes na frente para colocar a mochila, a bolsa ou sacolas, e capas de chuva para que nada atrapalhe qualquer passeio, melhor!). É extremamente agradável, divertido e proveitoso explorar a cidade de bicicleta (em vez de fazer as coisas a pé; a economia de tempo é grande e ainda assim você aproveita bastante os cenários da cidade por não estar fechado em carros ou metrô); de ir aos museus a sair para jantar à noite de terno e gravata. Nas cidades que são planas, mas que não têm faixas para ciclistas e os motoristas são meio doidos (como Paris e Nova York, por exemplo), ainda assim a gente gosta de pedalar. Mas só de madrugada quando não tem trânsito e você não corre o risco de ser atropelado ou muito xingado por motoristas estressados.

CAFÉ DA MANHÃ

Tomar café da manhã no hotel é sempre mais prático para já começar o dia (apesar de que eu gosto sempre de também tomar café na rua junto com as pessoas que moram na cidade, geralmente lendo o jornal ou checando o celular antes de ir para o trabalho; é bem mais interessante #peoplewatching). No hotel, a gente prefere o sistema de buffet. Em alguns hotéis, você tem um cardápio e, apesar de que eles vão satisfazer qualquer que seja o seu desejo trazendo o que você quiser do jeito que você gosta, é um tipo de trabalho — decisões + explicações + se fazer entender — que a gente prefere não ter ao acordar. No buffet, a gente já vê o que tem, pega o que quer (na quantidade que quer), e aí, pode-se fazer um pedido adicional — pratos quentes, um suco ou algum item que não esteja visível —, caso necessário. Além disso, uma mesa bem posta, com linhos, belas porcelanas, flores frescas e o jornal preferido, é sempre uma ótima maneira de começar o dia.

ESTILO

Um hotel que reflita a cultura e estilo da cidade é sempre preferível àqueles hotéis de grande cadeias internacionais com centenas de endereços pelo mundo e decoração padronizada, em que você só consegue sentir que está em Milão, Nova York ou Tóquio, quando você sai do hotel. Quanto mais local — administrado por uma família por várias gerações como é comum em alguns ryookans de Kyooto, por exemplo —, mais única a experiência. Se não, valem algumas unidades de redes de hotéis de luxo como Mandarin Oriental, Dorchester, Belmond, ou associações como Relais &Châteaux, que estão presentes com unidades em vários lugares mas com hotéis que sempre tentam representar a identidade do local em que estão instalados. Um hotel Armani, fiel à identidade do estilista italiano, faz todo o sentido em Milão, mas, em Dubai, é muito mais legal experimentar todo o exagero característico dos árabes ou tentar encontrar uma hospedagem beduína no deserto emiradense. 

O QUARTO

O que mais prezamos no quarto é a capacidade que ele tem de nos garantir uma ótima — e essencial — noite de sono. Assim, é imprescindível que os quartos tenham janelas-portas-paredes antirruído (não estou interessado em ouvir o barulho da rua, o do corredor ou o do quarto ao lado), temperatura controlada (ar condicionado/ar quente), blackout  total nas cortinas (que não deixe passar nem um fiozinho de luz), bons travesseiros (a maioria dos hotéis oferece opções para que você escolha) e, principalmente, um bom colchão, que é um dos pontos que ainda podem deixar a desejar. Nada pior do que chegar num quarto lindíssimo, ver aquela cama arrumada com os melhores fios e sentar no colchão e perceber que ele é mole demais para o seu gosto. Por isso, a rede Four Seasons começou a oferecer três diferentes toppings  para o colchão, de acordo com a vontade de cada hóspede: o Signature (que é médio), um mais macio e um mais firme. Eles são tão confiantes do seu colchão que eles até disponibilizam o Four Seasons Bed para venda. Que todos os hotéis do mundo sigam esse exemplo.

Quanto ao tamanho do quarto, que ele tenha, no mínimo, 35 metros quadrados (e um banheiro espaçoso com banheira). Quartos menores que isso, você não vai nem conseguir abrir as malas. Espelhos grandes, no banheiro e no quarto, bem iluminados e de corpo inteiro também são sempre bem vindos.

Sobre a vista, adoramos essa tendência de os hotéis de, em vez de terem seus próprios prédios, ocuparem alguns andares de edifícios altos (como é comum em Tóquio e também acontece no Mandarin Oriental Nova York e no Shangri-La em Londres): a vista para a cidade é sempre de tirar o fôlego. Janelas grandes, muita luz natural e raios de Sol iluminando o quarto no fim da tarde também fazem com que a estadia seja ainda mais agradável.

No quesito comes-e-bebes-na-privacidade-do-quarto, a água deve estar em uma garrafa grande de vidro e ser enchida durante a arrumação matinal e o serviço de abertura de cama noturno; e não deve ser cobrada. Não tem coisa pior do que estar em um hotel sem consciência ambiental, que gera uma quantidade enorme de lixo por usar milhares de garrafas plásticas — e pequenas — diariamente apenas para suprir uma necessidade básica do ser humano. No frigobar, queremos comidinhas saudáveis (superalimentos funcionais), cervejas, vinhos e champagne, e uma máquina de espresso e uma garrafa que ferva água para o chá no quarto. Não queremos ter de ligar para o serviço de quarto e esperar 10 minutos por um café que chega frio e sem crema (como os chás vêm em bule chegam sempre quentes, mas os cafés são feitos na cozinha ou no bar e vêm esfriando até chegar ao quarto).

ACADEMIA

É bem frustrante chegar à academia de um hotel e ver que “academia” para o hotel significa duas esteiras e quatro aparelhos para malhar todos os músculos do corpo. E muitos hotéis de luxo, em vez de academias, têm salinhas de fitness. Se você gosta de malhar, é sempre bom checar essa informação antes de se decidir pelo hotel. Que a academia seja aberta 24 horas por dia, porque dá pra malhar se você estiver com os horários todos trocados por conta do fuso. E que tenha saunas seca e a vapor — separadas para homens e mulheres — dentro dos vestiários, com duchas enormes para aquele relax pós-treino.

PISCINA

Sempre a céu aberto pra tomar um Sol, aproveitar o fim da tarde ou nadar vendo a lua. Mas, em Paris, Londres e Milão, é praticamente impossível encontrar uma piscina ao ar livre, mesmo nos hotéis palácio. Todas as piscinas são cobertas e pequenas (por isso, a gente ama o Mandarin Oriental de Barcelona, seria um pecado não aproveitar aquele Sol no verão). Se tiver vista, como a do Fasano Rio e a do Thermae Bath Spa (que não é um hotel, mas tem uma das piscinas com vista mais incríveis do mundo), ganha pontos. Ah, e que tenha serviço de bar e muitas, muitas toalhas enormes e felpudas à disposição dos hóspedes.

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