Quando você visitar a exposição, é pegando o elevador e subindo para a biblioteca que você encontrará as fotos mais significativas da exposição Last Folio — Preservando Memórias, em cartaz no Unibes Cultural, na cidade de São Paulo, até o dia 22 de outubro de 2016. As fotos do fotógrafo Yuri Dojc e o filme da cineasta Katya Krausova, ambos eslovacos, são lindas sim, mas é a história que está por trás delas — não deixe de assistir ao filme com os poucos sobreviventes do Holocausto em exibição na exposição — que faz com que você viaje para a Eslováquia, reflita sobre as atrocidades da Segunda Guerra Mundial e ainda seja apresentado a uma prática do povo judeu que eu desconhecia: o enterro de livros sagrados danificados (a Torá, o Nevi’im e o Ketuvin, ou mesmo, o livro de orações, o siddur ) em cemitérios da comunidade, como gesto de reverência e respeito.

Era enorme a presença judaica na antiga República Tchecoslovaca, fundada em 1918 com o fim da monarquia. Os judeus eram reconhecidos na Constituição e possuíam liberdade religiosa, cultural e participavam da política. Mas, em 1939, com a fundação, sob pressão do Reich alemão, da primeira República Eslovaca, um estado autoritário que teve grande participação no Holocausto, tudo mudou. Do dia para a noite, metade da população da pequena Bardejov, todos judeus, desapareceria, transportada em vagões de trem de carga para os campos de concentração. A promessa era a de que eles iam trabalhar, mas a gente sabe o fim da história. A cultura judaica, presente na região desde o século 2, quando os primeiros judeus foram trazidos como escravos da Judeia pelos soldados romanos, foi praticamente extinta.

last-folio-yuri-dojc-katya-krausova-1200-2Uma sala de aula da escola comunitária de Bardejov, na Eslováquia. Intacta depois de 70 anos. © Yuri Dojc

As casas e todas as sinagogas foram saqueadas. Pessoas “de bem” roubaram tudo o que puderam, mas não se interessaram pelos livros sagrados, de orações, que ficaram nas estantes da Escola Comunitária de Bardejov, com os nomes dos seus donos, por mais de 70 anos, exatamente como naquele dia em 1942 (numa das inúmeras viagens ao país, Yuri encontraria um livro que havia pertencido a seu avô, morto num campo de concentração). E é essa a história — de mais de vinte anos de documentação e cheia de encontros quase mágicos com os sobreviventes — por trás da exposição Last Folio; e essa é a história da volta de Yuri e Katya, que tiveram de emigrar de seu país — ele para Toronto, ela para Londres — quando as tropas russas invadiram a Tchecoslováquia em 1968.

Todos esses livros só existem hoje nas fotos de Yuri, já que conforme os poucos sobreviventes judeus foram se organizando tentando preservar o pouco que restou, os livros sagrados foram devidamente enterrados, como manda a tradição, no cemitério judaico da cidade. E nesse caso específico, é como se o dono de cada livro, que deve ter tido seu corpo jogado numa vala, pudesse ter, enfim, representado pelo seu livro de orações, o direito a um enterro respeitoso.

last-folio-yuri-dojc-katya-krausova-1200-3Uma sinagoga abandonada. Šaštin, 2007 © Yuri Dojc

Last Folio — Preservando Memórias  já foi exibida em Berlim, Nova York, Boston, Moscou, Toronto, e a montagem de São Paulo é a maior de todas (graças ao patrocínio da Bertelsmann Brasil), com 66 fotos (algumas inéditas) expostas no térreo e na biblioteca do edifício de concreto projetado por Roberto Loeb, que antes de ser Unibes Cultural era o Centro de Cultura Judaica.

SERVIÇO
Last Folio — Preservando Memórias
De 19 de agosto a 22 de outubro de 2016
No Unibes Cultural
Rua Oscar Freire, 2500, praticamente na saída da estação de metrô Sumaré, linha verde.
De segunda a sábado, das 10h às 18h, com permanência até às 19h. Entrada franca.

last-folio-yuri-dojc-katya-krausova-1200-1Um mikvah, local onde os judeus fazem um ritual de imersão em água para purificação. Mikhav, 2007, © Yuri Dojc