Ah, o wild, wild west. Saio do aeroporto e pego o táxi para o hotel. Em três minutos de pouca conversa (de um trajeto de sete), o taxista já me oferece drogas e prostitutas. Detalhe: ambas as atividades são ilegais não só em Las Vegas mas em todo o condado de Clark (você até pode pagar alguém para “passar o tempo juntos”, mas pode parar na cadeia se negociar sexo dentro da privacidade do quarto de hotel).

Na cidade cujo lema é “What happens in Vegas stays in Vegas”, onde a taxa de suicídio é quase três vezes maior que a média dos Estados Unidos, álcool, drogas, sexo, festas e jogos em que se aposta muito dinheiro (muitas vezes sujo, e sempre em salas privativas para jogadores que gastam seis, sete dígitos ao longo de curtas estadias regadas a champagne e mulheres) são emolduradas por uma arquitetura de extremo mau gosto e em escala megalomaníaca.

Porque é uma arquitetura que oprime ao invés de acolher. Que desestabiliza o olhar, que agride qualquer senso estético com seus pastiches vulgares da Roma antiga (em branco!), Paris (cópias de pedaços dos principais pontos turísticos da Cidade-Luz amontoados em uma só construção), Nova York (o pior, com vários prédios icônicos da Big Apple por fora, mas um só por dentro), Veneza (US$ 120 por um passeio de gôndola com um gondoliere americano admirando um céu pintado), ou ainda Egito (com uma pirâmide… de vidro).

De ruas largas e infinitas (mais adequadas para aviões que para pedestres), andar três quadras na Cidade do Pecado — ou simplesmente cruzar a longa faixa de pedestres — pode ser extremamente desconfortável e exaustivo sob o calor infernal, ainda mais com a multidão, a poluição visual e sonora.

E, nesta cidade sem história, cuja urbanização só começou em 1931 para abrigar os milhares de homens solteiros que viriam trabalhar na construção da Barragem Hoover (que a máfia fez questão de entreter com a criação dos primeiros cassinos e clubes de strip), imperam a artificialidade, o consumismo e o entretenimento de massa — nunca a cultura. Las Vegas é uma miragem — que segue fake — no meio do deserto, uma cidade que nunca investiria em um museu para não tirar o público — e o dinheiro — dos slots.

O IMPÉRIO DA ALIENAÇÃO

Senhoras brancas, idosas, de cabelos loiros e óculos, sem saber se é manhã ou noite (os cassinos são propositalmente projetados sem luz natural e sem relógios para produzir esse efeito), passam dias hipnotizadas pelas luzes coloridas dos caça-níqueis, apostando suas aposentadorias e tomando os coquetéis gratuitos oferecidos pelas garçonetes que as mantêm anestesiadas.

Turistas norte-americanos em clima de eterno spring break portando o uniforme camiseta-bermuda-boné-tênis em cores desconexas e copos de plástico enormes e coloridos cheios de daiquiri barato, lotam as ruas — Las Vegas é uma das dez cidades de todos os Estados Unidos onde se pode beber em vias públicas, reforçando o estigma da cidade de que aqui se pode tudo — e pensam que estar na Strip é como visitar, ao mesmo tempo, Nova York, Roma, Veneza e Paris, através dos mega hotéis-cassinos que, temáticos, simulam os destinos como se seus prédios fossem atrações de um parque de diversões. “Pra que ir pra Itália se posso ver Veneza aqui?”, li uma vez em um artigo.

NÃO ESPERE QUALIDADE EM SERVIÇO E COMIDA NOS HOTÉIS QUE COMPORTAM ATÉ 15.000 HÓSPEDES

Já nos hotéis com quatro, cinco mil quartos — mesmo nos mais famosos e “icônicos” —, não ouse se dar conta de que esqueceu a chave sobre a mesa da TV quando estiver à porta do seu quarto.

Você vai precisar andar meio quilômetro até a recepção, só para aí se deparar com uma fila para ser atendido, ficando atrás do grupo de 130 pessoas que acaba de chegar para fazer check-in e outros 20 hóspedes que precisam de alguma coisa. Apenas para pegar uma chave nova.

Para tomar café da manhã, entre na fila organizada com grades (como se estivesse em uma atração de parque de diversões) não para chegar à mesa. Mas ao caixa. Pague antecipadamente pelo buffet que, você descobre na hora, não está incluso no valor da estadia; mesmo tendo pagado as diárias mais o resort fee obrigatório — e também diário — de US$ 45 plus taxes.

Descubra também que, depois de assinar a fatura dos US$ 36 pelo café da manhã gigantesco e medíocre, seu espresso vai te custar mais US$ 5 (apenas o café americano no litrão de inox, o drip coffee, está incluso). Não se assuste tampouco ao ver um funcionário passando um spray que parece Lysoform sobre os sushi no balcão.

Depois de treinar na academia do hotel, surpreenda-se na hora de tentar usar a sauna do seu hotel “cinco estrelas”. Ao ser barrado ainda na porta por um funcionário do spa, ficará sabendo que precisa pagar US$ 50 por dia de uso, sem antes poder conhecer as instalações porque é uma zona clothes-free e “pode haver pessoas nuas”.

Mas não bastam os quartos cafonas, o pior mesmo é a comida péssima. Tirando os dez restaurantes — sempre de chefs celebridades que apenas assinam os cardápios mas nunca estão na cozinha ou na cidade, nem mesmo no país —, onde você vai pagar bem mais caro que em suas matrizes em Nova York e Paris, prepare-se para comer muito mal. Até um mero club sandwich pedido pelo room service de um dos grandes hotéis de Las Vegas tem grandes chances de levar o prêmio de pior refeição que você teve na vida (um club sandwich!); simplesmente incomível.

Mas o Grand Canyon e o trabalho ainda vão te levar a Las Vegas. Com uma estrutura incomparável para eventos que reúnem cinco, dez, quinze mil pessoas, a cidade oferece várias comodidades: o aeroporto que fica praticamente na Strip, a principal avenida da cidade; os hotéis com milhares de quartos; os gigantescos centros de convenções que mais parecem aeroportos e enfeiam a vista de todas as janelas da cidade.

Confira aqui, ainda essa semana, as poucas atrações e um dos raríssimos hotéis que valem a pena na cidade: o Four Seasons Las Vegas.

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