Durante o pôr do sol, a Mallory Square fica lotada de gente, comidinhas, músicos, cartomantes e galos (sim, tem muitos galos soltos em Key West e eles são protegidos por lei). Durante o dia, a praça vira um deque para relaxar e aproveitar a vista para o mar e a Sunset Key, onde está o restaurante Latitudes. Imagem: Shoichi Iwashita

Esta pequena ilha que é o ponto mais meridional dos Estados Unidos — mais próxima fisicamente da Havana comunista que da Miami capitalista — é dos mais charmosos e autênticos destinos da América do Norte.

Key West mantém ainda um senso de coletividade e respeito à liberdade e diversidade raros de se encontrar (são mais de dez hotéis onde o uso de roupas é opcional e sempre foi um destino gay-friendly, muito antes dos outros que surgiriam décadas depois), apesar de abrigar uma importante base militar desde o começo do século 19 (não se assuste se caças passarem voando baixo produzindo um som quase ensurdecedor; eles estão em treinamento, não está começando a Terceira Guerra Mundial).

Por conta disso, mesmo sendo a Flórida defensora da escravidão durante a Guerra Civil dos anos 1860, Key West, que nessa época tinha a maior renda per capita dos Estados Unidos, nunca foi Confederada como o resto do estado; sempre pertenceu à União, junto com os estados abolicionistas do norte, que controlava o exército. Um século mais tarde, a proximidade com Havana também reforçaria sua localização estratégica durante a Guerra Fria.

UMA MICRONAÇÃO: A CONCH REPUBLIC, COM CAPITAL EM KEY WEST

A Avenida Paulista de Key West, na Duval Street e arredores você encontra praticamente tudo o que interessa na ilha. Imagem: Shoichi Iwashita

Na Duval Street também fica o Sloppy Joe’s, bar frequentado por Ernest Hemingway, que hoje serve drinques super doces em copos de plástico com canudo. Sem falar que o escritor nunca pisou nesse endereço, já que o Sloppy Joe’s original ficava onde é hoje o Capt. Tony’s Saloon na Greene Street, a 30 metros daqui. Imagem: Shoichi Iwashita

O cinema Tropic, em estilo art déco, na Eaton Street quase esquina com a Duval. Imagem: Shoichi Iwashita

Não à toa, assim como os sicilianos não se sentem italianos, o povo de Key West não se sente pertencente à Flórida (ou mesmo aos Estados Unidos), a ponto de eles terem fundado aqui uma república independente em 1982, em protesto aos bloqueios e blitzes que a U.S. Border Control implantava nas estradas de acesso às keys em busca de drogas e imigrantes ilegais, prejudicando o turismo local.

A Conch Republic não tem obviamente qualquer reconhecimento oficial, mas tem Primeiro-Ministro, embaixadores no exterior, passaportes e até declarou guerra aos Estados Unidos logo após sua fundação! E apesar de, hoje, a República da Concha englobar todas as ilhas das Florida Keys, Key West segue sendo sua capital.

UMA ILHA QUASE SEM PRAIAS MAS COM MUITOS ATRATIVOS

Num dos cantos da Mallory Square, em frente ao hotel Ocean Key Resort & Spa, o bar-bancada de frente pro mar faz sucesso. Imagem: Shoichi Iwashita

Por toda a cidade, a arquitetura colonial com muita-madeira-e-varanda-everywhere-para-amenizar-o-calor forma o cenário perfeito para um passeio de bicicleta pelas ruas planas. Imagem: Shoichi Iwashita

Na esquina da South com a Whitehead Streets, o Southernmost Point dos Estados Unidos continental, essa “boia” de concreto, como o ponto mais ao sul do país é apenas simbólico (mas mesmo assim tem filas para fazer foto). O verdadeiro está no complexo militar de Truman Annex, inacessível ao público. Imagem: Shoichi Iwashita

Apesar de Key West estar no Golfo do México, e na mesma latitude das Bahamas, não espere por uma boa experiência de praia: superpovoada, a maioria das poucas faixas de areia é privativa (pertencendo a hotéis-resorts) e as praias que são públicas contam com uma quantidade de algas que tem sido um problema nos últimos anos; por conta do mau cheiro, da água escura e do desconforto ao andar e nadar.

Key West, no entanto, é sobre o estilo de vida que vai do assistir aos pores do sol na Mallory Square à enorme oferta de peixes e frutos do mar locais — lagostas, pink shrimps, stone crabs — sem deixar a key lime pie, o rum (lembre-se de que estamos pertinhos de Cuba) e a literatura de lado.

Tennesee Williams, de Um Bonde Chamado Desejo, uma das minhas peças favoritas da vida — que escreveu hospedado no La Concha — viveu aqui até a morte. Já Ernest Hemingway, um dos mais célebres autores norte-americanos do século 20 passou muitos anos em Key West, e sua casa com lindos jardins e mais de 50 gatos-de-seis-dedos aberta para visitação é um dos pontos altos da viagem (apesar de eu achar que ele não gostaria nada de ver sua casa invadida por turistas nem ver seu rosto estampado em vários estabelecimentos da cidade como “homenagem” para vender mais mojitos).

Além disso, explorar a ilha de bicicleta passeando pelas ruas planas (imagine que o pico mais alto de Key West, o Solares Hill, tem apenas 5,5 metros de altitude) e apreciando a arquitetura — do colonial ao art déco — da Old Town, a cidade antiga que abriga não só a principal rua da ilha, a Duval Street, com todos os bares, restaurantes, cinemas, igrejas e lojas em suas adjacências, mas também centenas de casas em estilo colonial e guest mansions, é desses passeios prazerosos que agradam a qualquer viajante.

Não só. Além de contar com um parque nacional, o Dry Tortugas, acessível via balsa ou hidroavião, o presidente Harry Truman passou aqui 175 dias de seu mandato (1945 – 1953), em sua Little White House, hoje também aberta para o público.

COMO CHEGAR A KEY WEST: CARRO, AVIÃO E BALSA

Quando vi no mapa aquele conjunto de mais de 1700 ilhas minúsculas formando uma linha estreita rodeada de águas — e conectadas por 42 pontes — achei que, durante a viagem de quatro horas de carro entre Miami e Key West, fosse encontrar dessas estradas idílicas e charmosas, com belas paisagens como as da Provence, da Toscana ou mesmo da Califórnia. Mas não. É uma rodovia de mão dupla cheia de lojas, strip malls e diners com pouquíssimas vistas inspiradoras.

No entanto, chegar ao fim Overseas Highway de carro é uma road-trip clássica, já que os Estados Unidos terminam em Key West. E como é bem improvável pensar em uma viagem pela Flórida (ou mesmo só por Miami) sem alugar um carro, aproveite a boa estrada. (Além de ser o ponto final da Overseas Highway, Key West também é o fim da U.S. Route 1, da State Road A1A, da East Coast Greenway, e, até 1935, também era o da estrada de ferro Florida East Coast Railway).

Se você não dirige, não precisa se preocupar: Key West também conta com um aeroporto [EYW] com voos diretos de e para Miami (45 minutos de voo), Naples, Orlando, West Palm Beach, Dallas e Atlanta. E tem também uma balsa que vai e volta de Naples, uma viagem de quatro horas, perfeita para desfrutar desses dois destinos completamente diferentes em uma mesma viagem. {Para acessar o site do serviço de ferry, clique aqui.} 

PARA LIGAR KEY WEST A CUBA NASCE A MAIOR COMPANHIA AÉREA DO SÉCULO 20

Antes da Revolução Cubana de 1959, Key West — a 153 quilômetros de Havana vs. 210 quilômetros de Miami — tinha conexões diárias por vias aéreas e marítimas com a capital da ilha caribenha; todas proibidas depois do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos no auge da Guerra Fria.

E foi graças a essa ligação que nasceria, em Key West, em 1926, justamente para voar para Havana, aquela que se tornou a maior companhia aérea estadunidense do século 20 — e uma das maiores do mundo —, a Pan Am.

Ernest Hemingway, um dos principais escritores norte-americanos e mais célebre morador de Key West, também se dividia entre as duas cidades. Depois de uma temporada na ilha, na casa que é hoje um lindo museu (leia mais abaixo), ele morou por quase 30 anos em Cuba e lá escreveu sete livros. Um ano depois de ser obrigado a deixar o país, agora, governado por Fidel Castro, o escritor, dos mais prolíficos da literatura norte-americana e ganhador do Pullitzer em 1953 e do Nobel de Literatura em 1954, se suicidou.

LATITUDES: O RESTAURANTE IMPERDÍVEL

São três ambientes para se escolher no Latitudes: o salão interno, a varanda ou ao ar livre. Imagem: Shoichi Iwashita

Salada de kale com pistache, erva-doce e molho de limão para começar. Imagem: Shoichi Iwashita

A key lime pie do Latitudes não é tão incrível quanto a do The Continental de Naples, mas é bem feita. Imagem: Shoichi Iwashita

Chegar ao Latitudes é como pegar o barquinho na Piazza San Marco com destino ao Cipriani. Na ilha de Sunset Key, parte do hotel de mesmo nome, é preciso pegar um barco — gratuito, que sai do píer 29 (em frente ao 233 Front Street) a cada 30 minutos — para chegar a esse restaurante elegante com vista para o mar, com a possibilidade de se jantar ao ar livre rodeado de palmeiras e tochas de fogo. As reservas são obrigatórias e como abre às 17h todos dias para jantar, aproveite o menu com muitas opções de peixes e frutos do mar frescos e bem feitos ao pôr do sol, em um jantar sem pressa e regado a muitos vinhos norte-americanos de Napa Valley e do Oregon. Para almoço, abre das 11h às 14h15; para jantar, todos os dias, das 17h às 22h. {Para fazer reserva no Latitudes, é só clicar aqui.} 

A CASA DE ERNEST HEMINGWAY: A PISCINA MAIS CARA DA FLÓRIDA

A fachada da casa de dois andares rodeada por jardins. Ernest Hemingway morou aqui entre 1931 e 1939, mas manteve a residência até sua morte em 1961. Imagem: Shoichi Iwashita

Os móveis que decoravam uma das salas da espaçosa casa. Imagem: Shoichi Iwashita

Os gatos estão por todos os cantos: dormindo em cima da cama, descansando no banheiro, andando pelos corredores. São mais de 50, todos descendentes de Snow White. Imagem: Shoichi Iwashita

Hemingway morou aqui entre 1931 e 1939 (não sem deixar de viajar o mundo) e essa bela casa em estilo colonial francês construída em 1851 e comprada pelo tio rico de Pauline Pfeiffer, sua segunda esposa, foi não só a primeira casa a ter um banheiro com água corrente no primeiro andar (graças a uma cisterna no teto que acumulava água da chuva), mas também a primeira ter uma piscina em Key West. Que custou uma fortuna: Pauline gastou US$ 20.000 para construí-la, o que equivaleria hoje a US$ 340.000. Em contraponto à piscina luxuosa, Hemingway transformou um item que lhe era bastante familiar, o mictório do Sloppy Joe’s, o bar que frequentava (originalmente na Greene e não na Duval Street), em uma fonte, em conjunto com um vaso de cerâmica cubano.

Apesar de o escritor ter se mudado para Cuba posteriormente, ele manteve a casa até sua morte, em 1961. E por mais que a casa onde nasceu e viveu seus primeiros anos na Grande Chicago também ter se transformado em um museu (e duas outras casas serem reconhecidas como monumentos históricos), é aqui que se sente a presença do autor, em todos os móveis (incluindo a mesa e a máquina de escrever onde escrevia), objetos, manuscritos, os livros e os mais de 50 gatos descendentes de Snow White, seu primeiro felino que por um acaso do destino tinha seis dedos nas patas da frente; característica passada para as gerações posteriores (tem gatos com até sete dedos). Nesta casa, ele escreveu obras como The Snows Of Kilimanjaro e To Have And Have Not.

A Ernest Hemingway Home abre 365 dias por ano, das 9h às 17h, o ingresso custa US$ 14 — inclui uma visita guiada de 30 minutos, que vale a pena fazer para escutar todas as histórias — eles só aceitam dinheiro. Endereço: 907 Whitehead Street, telefone +1 (305) 294-1136. {Para acessar o site, é só clicar aqui.}

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