O abacaxi, fruta típica das Américas e hoje tão comum e apreciado em todo o mundo, já foi uma fruta exótica e hype. Fascinava os europeus de tal maneira que Joséphine Bonaparte, então Imperatriz da França, mandou fazer um vestido todo bordado com desenhos de abacaxis (o que era uma maneira de afirmar seu distanciamento das massas, já que só os muito sofisticados conheciam a fruta; e eu que sou um apaixonado pelo estilo Império, fiquei chocado quando vi tal vestido numa exposição rs ).

A fina estampa parisiense do século 19 só conseguia ter acesso ao abacaxi e outras exóticas iguarias graças a Ferdinand Hédiard, que em 1853, abriu sua primeira mercearia e ficou obcecado em educar os parisienses para esses tipos de alimentos (a Hédiard foi a primeira empresa a importar caviar iraniano para a Europa, por exemplo). Tanto é que ainda hoje, mais de 150 anos depois, a Hédiard continua sendo sinônimo de mercearia de luxo (ou en français: épicerie de luxe ) em todo o mundo, apesar de sua concorrente-mor, a Fauchon (que foi criada 30 anos depois).

A tradicional Hédiard na Place de la Madeleine, praça que é hoje sinônimo de iguarias gastronômicas de altíssima qualidade, ocupa o mesmo prédio desde 1870 e continua vendendo as mesmas mercadorias de outrora, mas com muito mais variedade (em 1870 nem se falava de globalização, não existia avião e nem internet): são mais de 6 mil produtos, entre dezenas de sabores de geleias naturais (divinas!), cafés (são 35 variedades, torrados e moídos na hora), chás, vinhos, frutas, legumes e até gomas de mascar.

Voltando ao abacaxi, o escritor e gourmet  Alexandre Dumas (autor de obras como O Conde de Monte Cristo, Os Romances de d’Artagnan – entre eles, Os Três Mosqueteiros –, A Rainha Margot, além de ter escrito uma obra fundamental da gastronomia, O Grande Dicionário de Culinária, publicado em 1873) provou o abacaxi pela primeira – e se apaixonou pela fruta – também através de Monsieur  Hédiard.