Como não são todos os lugares onde estrangeiros são aceitos em Tóquio, os bares e baladinhas foreigners-friendly ficam sempre lotados de ocidentais (e japoneses que gostam deles). No coração do bairro gay da maior metrópole do mundo, o AiiRO Cafe. Imagem: Shoichi Iwashita

Da Índia à Tailândia, qualquer viagem à Ásia é sempre um confronto com nossos valores, com os símbolos ocidentais do que é masculinidade. O Japão não é diferente.

50 TONS DE VIRILIDADE

Em Kabukicho, a “zona vermelha” de Shinjuku, mas voltada para heterossexuais, um menu de acompanhantes “pretty” para mulheres. Imagem: Shoichi Iwashita

O gaydar tende a não funcionar: é comum ver homens — atenção: heterossexuais, mesmo adolescentes, naquela fase de afirmação — com sobrancelhas feitas, pernas depiladas, penteados femininos e roupas andróginas; um mundo onde a aparência quase nunca dita a orientação sexual (e é assim desde muito antes da onda metrossexual norte-americana).

Apesar de ser um país onde os direitos LGBT avançam lentamente, no popular mundo dos manga, existe um gênero, o Yaoi {やおい}, que é só sobre histórias de amor entre dois garotos. Só tem um detalhe: o Yaoi não é feito para gays mas sim para meninas adolescentes (e sempre me pergunto como isso seria visto em qualquer outro país). No Japão, desde sempre, relações nanshoku {男色, homossexuais} nunca foram incompatíveis com a instituição do matrimônio heterossexual. Talvez porque a noção de amor romântico deles seja bem diferente da nossa.

Se por um lado, nas novelas históricas e filmes de samurai, esses bravos e honrosos guerreiros que formavam os exércitos particulares dos senhores feudais entre os séculos 10 e 19 falam, gesticulam e agem como se estivessem no topo da pirâmide intergaláctica da virilidade, no Kabuki {}, um estilo de teatro colorido e popular que nasceu no século 18 (e cujas apresentações imperdíveis você assiste no Kabuki-za em Ginza {}, todos os arquétipos de personagens femininos, da cortesã do imperador à da mulher que mata para conquistar algo para o homem amado, são impecavelmente interpretados por atores, especializados nesses papéis femininos; e que não são necessariamente homossexuais (no Kabuki, mulheres não são permitidas no palco; saiba mais sobre esse gênero de teatro japonês, clicando aqui).

QUANDO A RELIGIÃO NÃO CULPA O SEXO

Em uma pintura shunga (a menos explícita que encontrei), de Kitagawa Utamaro, de 1803, um monge budista tem relação sexual com seu pupilo. Imagem: Reprodução

Apesar do tratamento ainda velado à questão (mas penso que os japoneses são assim em tudo o que se refere à intimidade), os fundamentos históricos também permitem uma abordagem, digamos, mais leve em relação à temática da diversidade sexual.

As duas principais religiões do Japão — o budismo e o xintoísmo — não têm histórico de condenação à homossexualidade (nem a qualquer prática sexual). Assim como ocorria entre os samurai (e também na Grécia Antiga), o relacionamento afetivo e sexual entre dois homens, nos templos e exércitos, sempre entre um mestre e um jovem, era parte da estrutura religiosa e militar.

Não só. Deuses xintoístas como Hachiman e Tenjin eram guardiões do amor entre homens (mas patriarcal como sempre foram as civilizações, o amor entre mulheres nunca teve a mesma importância). Publicado em 1687, fez sucesso o livro O Grande Espelho do Amor Masculino (em tradução mega livre de Nanshoku Okagami), do poeta clássico japonês Ihara Saikaku, com 40 contos sobre o amor homossexual entre os militares, e as relações com as onnagata, atores Kabuki durante o dia e prostitutas à noite, que atraíam o desejo tanto de homens quanto de mulheres.

Na Tóquio do século 21 (que já parece estar cem anos à nossa frente), essa herança não é sempre visível, mas é sentida, principalmente na maneira livre e natural com que os japoneses exercitam sua sexualidade (lembre-se de que eles não crescem com a culpa cristã, com a ideia de que o sexo é sujo ou pecado). Não à toa, práticas como bukkake, shibari, hentai, sexo com bonecos cada vez mais realistas ou com personagens de videogame, venda de calcinhas de adolescentes — e vários et cetera (alguém se lembra do sushi erótico do Faustão?) — são invenções japonesas e não são vistas pela sociedade como o fim dos tempos.

É CRIME SER GAY GRAÇAS AOS INGLESES

Com a chegada dos ingleses, o Japão começa a ocidentalizar os costumes: o kimono dá lugar ao terno e à cartola. Na foto, os membros da Missão Iwakura. Imagem: Reprodução internet

Na questão gay não é diferente. A homossexualidade só foi criminalizada no Japão em 1872, graças à abertura do país para os ingleses, que trouxeram junto consigo seus valores vitorianos (imagine que só em 1967, ou seja, ontem, a Inglaterra descriminalizou a homossexualidade — até então, homossexuais poderiam ser condenados à prisão perpétua), mas foi logo abandonada oito anos depois quando a Terra do Sol Nascente decide adotar o Código Napoleônico (o Código Penal de 1791 da Revolução Francesa já havia descriminalizado a homossexualidade e o Código Civil de Napoleão de 1810 não volta a abordar o tema, apesar de, ainda assim, a homossexulidade ser bastante rejeitada na sociedade francesa da época).

A igualdade de direitos entre cidadãos LGBT e heterossexuais ainda está longe de ser alcançada, mas o Japão (junto com Taiwan) figura na lista dos países que mais avançam nos direitos LGBT no continente asiático. Aqui, gays podem fazer parte das Forças Armadas, doar sangue (nós, brasileiros gays, ainda não podemos), transexuais podem mudar legalmente de sexo após a cirurgia reparadora… Mas o casamento ainda não é reconhecido e a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo só é legal em nove localidades, incluindo os distritos de Shibuya e Setagaya, em Tóquio, e as cidades de Osaka, Sapporo, Fukuoka.

NOITE GAY EM TÓQUIO: ESTRANGEIROS BEM-VINDOS-MAS-NEM-TANTO

Cada porta dessa é um bar minúsculo, mas nem todos aceitam estrangeiros. Imagem: Shoichi Iwashita

Apesar da globalização, de o Japão ser uma das maiores potências econômicas do mundo, ainda existem muitas barreiras para que os estrangeiros imerjam na cultura local. É assim em alguns dos melhores e mais caros restaurantes de Tóquio; e não é diferente na noite gay.

Isso porque a maioria dos bares e clubes gays de Tóquio ou não aceita ou impõe barreiras de entrada para desestimular a presença de estrangeiros (em muitos deles, você vai ver o aviso “members only”).

O medo da entrada do HIV no Japão já foi uma preocupação — as taxas no país ainda são baixíssimas —, mas tem também o fato de que a grande maioria dos bares é minúscula. Os poucos clientes e habitués buscam socializar e conversar; o(a) dono(a) do estabelecimento atua sempre como um anfitrião e entertainer (ele até pode te colocar para sentar ao lado de alguém que ele pense que pode ser interessante para você); e um estrangeiro que não consegue se comunicar ou não se comporta de acordo com os costumes japoneses quebra a dinâmica da noite (não podemos nos esquecer tampouco de que ainda existe um certo grau de xenofobia no Japão.)

Assim, a experiência que você terá como gay no Japão será sempre mais “internacionalizada”, mas não menos divertida. A não ser que você tenha um amigo local — e japonês — que te leve para alguns desses lugares.

COMO CHEGAR AO BUCHICHO GAY DE SHINJUKU-NI-CHOOME?

Shinjuuku-Ni-Choome {新宿二丁目} é o nome do quartier gay desta que é a maior metrópole do mundo, e a região tem também a maior concentração de bares gays por metro quadrado do planeta: são mais de 300 em algumas poucas quadras (em toda a cidade, são quase 500). Mas não se engane pela quantidade, já eles são todos minúsculos, com lugares para apenas oito, dez pessoas.

O mais interessante é que, apesar de alguns serem acessíveis pela rua, a grande maioria fica nos andares de pequenos prédios de aspecto residencial— o que dá a sensação não de estar chegando a um bar, mas sim à quitinete de um amigo. E em um prediozinho pode ter 10, 15 bares.

O fato de que no Japão as ruas não têm nome e os lugares não tem número, chegar a um endereço específico pode ser um desafio (a estação de metrô de Shinjuku ter 200 saídas tampouco ajuda). Por isso, prefira descer na estação de metrô Shinjuku-San-Choome {新宿三丁目, com uma escala mais humana} e procure pela saída C7.

Subindo as escadas, você já vai ver o prédio Bygs (o que mais chama a atenção, no entanto, é o letreiro da Autus, que fica no edifício; foto abaixo). Aí, é só você caminhar no sentido contrário da escada que subiu, e entrar na segunda rua à esquerda. Um quarteirão depois, voilà, você estará no coração de Shinjuku-Ni-Choome.

É essa a saída do metrô onde você tem de descer para chegar mais fácil ao coração gay de Shinjuku-Ni-Choome. Imagem: Shoichi Iwashita

O QUE TEM PRA FAZER EM SHINJUKU-NI-CHOOME?

A plaquinha do Arty Farty ao lado da escada que você tem de subir para chegar lá. Imagem: Shoichi Iwashita

Nas ruas de Ni-Choome, você vai encontrar vários bares ao estilo ocidental, como o Eagle Tokyo e o Aiiro Café, no esquema compre-a-bebida-no balcão-e beba-onde-quiser (inclusive na rua); muitas lojas — de konbini e barraquinhas de comida a sex shops abertas madrugada adentro —; e boatezinhas como a Arty Farty e a The Annex (do mesmo dono), com DJs só nos finais de semana.

As duas são bonitinhas e pistas de dança pequenas, pessoal jovem (japoneses e estrangeiros), músicas pop internacionais (sempre sinto falta das músicas locais, de J-Pop). Para entrar, basta comprar um drink: eles carimbam seu pulso e você pode circular livremente entre a Arty Farty e a The Annex, sair e voltar.

A fachada do aconchegante CoCoLo Café, que abre todos os dias às 11h e nos fins de semana vai até às 7h da manhã. Imagem: Shoichi Iwashita

Torta do dia com chá de azuki, o feijão vermelho com que se fazem os doces no Japão. Imagem: Shoichi Iwashita

Para comer alguma coisa, tomar um chá ou café e observar o povo, o destino é o CoCoLo Café, onde você prova não só os deliciosos bolos japoneses (nada doces), várias comidinhas bem feitas e uma variedade grande de chás (tomei até chá de azuki, o feijão vermelho tradicional da doçaria japonesa; foto acima). O CoCoLo abre todos os dias às 11h da manhã e de segunda a quinta fecha à meia-noite, e nas sextas e sábados vai até às 7h da manhã.

Para tomar um drinque (nada muito incrível) e se divertir com o staff todo montado em drag, o destino é o Campy! Bar. Para um drinque informal, de pé na rua, e se encontrar com um monte de estrangeiros, é só procurar o bar de esquina AiiRO Café (tudo o que eu estou citando aqui fica em três quadras, não tem como se perder e ainda dá para fazer um bar-hopping).

GRANDES FESTAS GAYS DE MÚSICA ELETRÔNICA

Flyer de uma das festas gays na Ageha. Imagem: Reprodução

Para grandes festas de música eletrônica e fora de Shinjuku (quase fora de Tóquio também, à beira da baía de Tóquio), tem a Ageha, a maior boate do Japão, com sistemas de som e iluminação que fazem jus à fama da tecnologia nipônica de ponta. Lá acontecem algumas festas gays que atraem não só bichas japonesas, que vem de todo o país, como também dos países vizinhos; e eu sempre amo ver os japoneses dançando! Para consultar a agenda, é só acessar o site gtopia.jp.

A SAUNA GAY DO BAIRRO

A entrada da 24 Kaikan, numa esquininha de frente a um estacionamento. Imagem: Shoichi Iwashita

Esqueça as saunas gays de um ou dois andares espaçosos dos grandes centros urbanos do mundo (as melhores sempre nos países germânicos, néam?). A 24 Kaikan {24会館}, uma sauna gay que também faz as vezes de hotel-cápsula e sentoo (os banhos públicos em áreas urbanas típicos do Japão), ocupa, assim como os bares, um pequeno e estreito edifício de sete andares, com direito a rooftop onde se pode tomar banho de sol pelado durante o dia. E aqui escrevo tudo o que eu queria saber antes da primeira vez que fui lá.

Para entrar é preciso subir uma escada, já que a recepção fica no primeiro andar (mas como no Japão o térreo é andar 1, logo, a recepção fica no andar 2). Antes de qualquer coisa, é preciso que você tire seus sapatos. Antes da recepção, você verá uma parede de lockers para sapatos. Coloque-os dentro do armário, tranque e pegue a chave.

A entrada você paga em uma máquina (lembre-se, você está no Japão, aqui é tudo na máquina). Pague a entrada de ¥ 2,800, pegue seu tíquete, e, aí sim, entregue-o junto com a chave do locker de sapatos para o recepcionista, que vai te dar a chave do seu locker oficial com o mesmo número da chave do locker do sapato, além de uma sacola com toalha de banho, toalha de rosto e uma yukata (roupão bem fininho), para os mais tímidos. Aí, é só você se dirigir ao locker, tirar a roupa, guardar tudo, trancar e explorar a sauna, que tem área de banhos, com duchas e ofuro, salas de vídeo, área de fumantes (no Japão, fumar dentro de qualquer lugar ainda é uma realidade), e ainda quartos coletivos com tatami e futon e até beliches para dormir (muitos que perdem o último trem de volta pra casa depois do trabalho podem dormir aqui, e tem várias pessoas roncando, é engraçado). Você pode ainda alugar um quarto privativo, pois o 24 Kaikan também funciona como um hotel.

E aproveite essa experiência que será, no mínimo, antropológica. (Shinjuku-Ni-Choome ainda tem bares e um hotelzinho exclusivo para as meninas. Mas não tenho propriedade para falar sobre isso.)

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Sukiyabashi Jiro

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