Um palco mal iluminado, sem música. O bailarino veste uma calça saruel, carrega uma lanterna, e passando a mão na parede e no chão — como se quisesse ver a poeira impregnada nesta viagem de reflexão sobre a sua relação com o pai já morto —, ele logo pega uma marreta e, com toda a força, bate no solo que representa suas origens bengalesas. Seja através das marretadas, das relações que o bailarino mantém com os objetos de cena ou dos movimentos ágeis e bruscos, existe uma agressividade latente em Desh, o primeiro solo de Akram Khan, coreógrado britânico de pais bengaleses, que é um dos mais geniais de sua geração. Agressividade essa sempre tão presente — e tão natural — entre pais e filhos, como na impaciência típica em diferentes fases da vida (dos pais quando os filhos são crianças e cheias de perguntas, dos filhos conforme os pais vão envelhecendo e perdendo sua capacidade de reagir ao mundo com a mesma velocidade) ou nas diferentes visões sobre os assuntos (qual o melhor caminho pra o filho trilhar para que ele tenha um futuro melhor, seguir as tradições e seus valores inerentes ou romper com elas?).

No trabalho mais pessoal do coreógrafo, Desh (palavra que significa pátria em bengali), Akram não só dança, mas canta, interpreta, interage com animações, dubla a si mesmo e sua; como ele sua (seu suor jorra com seus movimentos mais bruscos, a camisa fica encharcada antes da metade do espetáculo). E não há limite para sua criatividade na hora de escolher os recursos a serem utilizados para dar forma à sua narrativa. Em dado momento, ele pinta dois olhos e um nariz sobre o alto de sua cabeça careca e, olhando para baixo enquanto os olhos pintados miram a plateia, nos faz acreditar que ele carrega uma cabeça — outra — sobre seu corpo (conforme ele sua e a tinta derrete, é como se chorasse; veja no trailer abaixo). Em outro, ele conversa com Eshita, uma criança invisível com quem ele interage no palco, que, em vez de escutar sobre lendas bengalis, quer mesmo é saber de Lady Gaga (e seus movimentos durante esta conversa rende um dos mais geniais momentos do espetáculo — e uma das coreografias mais originais que já vi). A cena em que ele navega, perambula pela floresta cheia de animais, sobe uma alta árvore, anda sobre as copas e cai, interagindo com animações monocromáticas cujas linhas nos remetem às mitologias orientais é também memorável, assim como quando ele “brinca” de rodar no meio de centenas de fitas brancas enfileiradas em várias camadas, compridíssimas, da altura da boca de cena, e lindamente iluminadas.

Do real ao épico, passando pela fantasia e sensações, Bangladesh, o país (e seu trânsito, som das buzinas, ritmo de suas músicas, pedintes, protestos), não é esquecida (Akram passou uma temporada com sua equipe no país que serviu como período de pesquisa para Desh). Tampouco é a realidade dos bengaleses em Londres (a sobrevivência, o trabalho, as famílias, a saudade da terra natal), representada pelos diálogos de Akram, nascido em Londres, com seu pai, nascido em Bangladesh. Símbolos da cultura contemporânea — o iPhone, os call centers terceirizados na Ásia, Michael Jackson e Lady Gaga — dão graça a esse solo que segura a plateia por uma hora e meia, sem intervalo.

Apesar de toda a criatividade, poesia e beleza das cenas de Desh (as músicas são outro belíssimo ponto de destaque), o que mais emociona é a verdade por trás desta autobiografia. Um bailarino que não tivesse os traços orientais de Akram jamais poderia interpretar essa peça. Porque ele simplesmente não teria o gesto de reverenciar seu pai bengalês, essa fonte de tantos conflitos e inspirações, durante os aplausos.