O caviar dos esturjões do Mar Cáspio está cada vez mais raro (correndo o risco de desaparecer num futuro próximo). Trufas brancas de Alba atingem preços recordes nos leilões (em 2004, o restaurante Zafferano, de Londres, chegou a pagar US$ 52 mil por uma trufa de 850 gramas; saiba tudo sobre elas em nossa matéria exclusiva, clicando aqui). No universo das iguarias raras e caras, a questão é: no século 21, não só os locais apreciam e consomem tais produtos, mas sofisticados dos cinco continentes exigem acesso a eles. E quanto mais raro, mais exclusivo — e consequentemente mais caro —, melhor.

Apenas os vinhos espumantes produzidos na região de Champagne, com as uvas pinot noir, pinot meunier e chardonnay, e seguindo rigorosos padrões técnicos podem ser considerados e chamados de “champagne”. E apesar de muitos países produzirem vinho espumante de excelente qualidade (o Brasil inclusive; o Chandon nacional é muito elogiado em degustações, apesar de a segunda fermentação acontecer em cubas de metal, no método conhecido como charmat, em vez de acontecer nas garrafas, como no método mais tradicional, o champenoise), muitos dos consumidores continuam a ter ainda certo preconceito com as bebidas produzidas fora da região de Champagne (quem tem coragem de servir espumante nacional em uma festa em casa, levanta a mão!).

Por conta dessa atitude em todo o mundo (todo mundo quer tomar a bebida com a história e a tradição e o número de milionários não para de aumentar) a não-tão-grande região de Champagne produziu no ano de 2007 quase 340 milhões de garrafas da bebida pétillante, sendo que 150 milhões dessas garrafas foram exportadas para 190 países; um número recorde (a produção dos anos seguintes ficou numa média de 300 milhões de garrafas ao ano).

E é aí que está o problema: 1. a procura por champagne cresceu, mas os 32 mil hectares protegidos pelo governo francês para produzir a bebida que leva o selo Apellation d’Origine Contrôlée (denominação de origem controlada), num processo que começou em 1927, continuam os mesmos há décadas; 2. essa fantástica produção só pode ser atingida, graças ao clima perfeito, resultando em excelentes colheitas, em qualidade e quantidade (e sabemos que nada pode ser mais instável que o clima).

A solução que as grandes casas têm encontrado é aumentar a abrangência dos terrenos oficialmente designados na França ou — pasmem! — fora dela, incluindo a Inglaterra; ideia que vem sofrendo grande rejeição, naturalmente. Casas como a Louis Roederer (que produz o über apreciado cuvée  Cristal) e a Duval-Leroy já estiveram nas regiões de Kent e Sussex (Sul da Inglaterra) para pesquisar terrenos (e vários produtores na região têm produzido bons espumantes… ingleses, olha só).

Outra batalha travada pelas casas produtoras e proprietários de terra franceses é o estudo — e a consequente escolha — das novas terras a serem incluídas pelo governo na área produtora de champagne. O critério é rigoroso e muitas comunas foram deixadas de fora, o que provocou a ira dos proprietários. E não é para menos, já que muito dinheiro está em jogo. O valor das terras de plantação de uva destinada à produção de champagne é no mínimo 200 vezes maior que o das terras de plantio de trigo e beterraba.

Enquanto a gente acompanha o futuro da região que produz uma das nossas bebidas favoritas, o jeito é esperar e torcer para que o clima continue a brindar os produtores com um ótimo tempo, para que possamos continuar a ter acesso ao melhor da produção francesa por muitos e muitos anos. Tim-tim!

E não deixe de conferir o nosso guia de viagem pela região da Champagne, incluindo Reims, Hautvillers e Épernay! :- )