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Cinema

O Banquete: Um retrato indigesto do cinismo e da perversidade que pode permear as relações humanas, no novo filme de Daniela Thomas

Na minha juventude fui apaixonado pelos filmes do diretor francês François Ozon que se passavam inteiramente em um único ambiente, como Gouttes d’Eau Sur Pierres Brûlantes (de 1999) e Huit Femmes (de 2001, com um elenco formado pelo panteão das atrizes francesas; pense em Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart e Cathérine Deneuve juntas). A relação entre os sempre poucos personagens “presos” naquele cenário do lado de lá da tela, e nós, de cá, na caixa escura do cinema, por uma, duas horas, possui aquele capacidade...


Atômica, o filme: Lorraine Broughton é a nossa agente secreto do século 21

Se, desde 1956, a bebida de James Bond é o dry martini — do “shaken, not stirred”  ao Vesper —, Lorraine Broughton (guarde esse nome), a agente lésbica do MI6, o Serviço Secreto de Inteligência Internacional do Reino Unido, só bebe vodca Stolichnaya on the rocks  e fuma (muito, o filme todo). E a Atomic Blonde (o filme em português ganhou o nome Atômica), interpretada pela belíssima atriz sul-africana Charlize Theron (que também é produtora do filme) e inspirada no graphic novel The Coldest City  de Sam Hart (que mora em...


Paris para quem fala francês: Um roteiro além do básico para os apaixonados por cultura; teatro, cinema, literatura

Não é preciso falar qualquer idioma perfeitamente para apreciar grande parte das experiências nas viagens: as paisagens, a arquitetura, a gastronomia, os concertos, espetáculos de dança, as exposições (a maioria dos museus tem placas e legendas versadas para o inglês), as vitrines. Mas para se aprofundar na cultura local e absorver a visão de mundo dos nativos (quase sempre muito diferente da nossa, e essa é uma das partes mais enriquecedoras das viagens), seja lendo os artigos de opinião dos jornais sobre os assuntos do momento,...


Animais Noturnos: Existe beleza e poesia no sofrimento de Tom Ford

A experiência no cinema é assistir a um filme em que a personagem lê um livro. Com o livro Tony & Susan, de Austin Wright, de 1993, que serviu de inspiração para o tenso filme de Tom Ford, você lê um livro sobre uma mulher que lê um livro. E se a história de Tony, protagonista do livro-dentro-do-livro Nocturnal Animals, vai ter a força de trazer à tona conflitos na protagonista do livro Tony & Susan, Susan (até por que o livro-dentro-do-livro  foi escrito por seu ex-marido e inspirado nela), as histórias de ambos vão...


Revoluções africanas em mostra de cinema em São Paulo

Mais do que estar in loco  viajando pelo mundo e conhecendo as paisagens, ainda não existe forma mais profunda de se viajar que através da literatura e do cinema, seja pela ficção ou pela realidade. É quando entramos nas casas e nas cabeças dos habitantes, quando conhecemos sua(s) história(s), sua intimidade, seu modo de pensar e sentir. E é por isso que eu estou apaixonado pelo festival de cinema — de recorte único — que estreia nesta sexta, dia 11 de novembro, no Cine Caixa Belas Artes. Com o nome África(s). Cinema e...


Spotlight, quando gente de bem defende o indefensável em nome da religião

A minha vontade hoje era escrever “Apenas assistam a este filme que já é um dos melhores de 2016” e fechar a matéria com um ponto final. Em um momento quando negros, mulheres, transexuais, entre outras tantas vítimas de “invisíveis” injustiças sociais passam a ter suas vozes ouvidas, o filme Spotlight  vem tocar numa ferida sistêmica e nos fazer relembrar um escândalo que ficou nas nossas memórias como mais uma série de tristes manchetes. O filme de Tom McCarthy vem colocar rostos, nomes e mostrar os bastidores — e as...


A Dama Dourada

Não há quadro com história mais incrível no — difícil e muitas vezes obscuro — mundo das artes que Goldene Adele ou Woman in Gold, da fase dourada do pintor austríaco Gustav Klimt, cuja história é retratada no filme A Dama Dourada. Esse é o nome que o quadro recebeu quando foi roubado pelos nazistas para esconder o fato de que a retratada, a grande dame  da sociedade vienense Frau Adele Bloch-Bauer, era judia. São quase 100 anos entre a pintura do quadro em 1907, a morte repentina de Adele em 1925, o roubo do quadro pelos...


Samba

Difícil não se lembrar dos papéis anteriores dos dois protagonistas de Samba: Omar Sy, que, numa continuação de Intouchables (Os Intocáveis) segue no papel de imigrante ilegal em território francês que, fofo que é, conquista os corações gauleses, e Charlotte Gainsbourg, que já na cena em que ela olha o negro alto e forte sem camisa (e também na cena final, na sala de reuniões), simplesmente NÃO DEIXA a gente não se lembrar dela como a ninfomaníaca depressiva que, no filme de Von Trier, protagonizou uma cena explícita de dupla...


Saint Laurent, agora, por Bertrand Bonello

Ambos os filmes têm o mesmo tema e foram lançados em 2014. Mas tudo é mais bonito no Saint Laurent de Bertrand Bonello em comparação com o Yves-Saint Laurent de Jalil Lespert: os atores (Gaspard Ulliel!!! — lindo, pelado e em nu frontal —, Louis Garrel!!!, Aymelide Valade!, e mesmo Jérémie Renier, que acompanho desde As Rosas Selvagens, tem seu charme), os enquadramentos, a composição das cenas, os móveis design  do apartamento de Jacques de Bascher (o amante de Yves), a bela fonte que dá forma ao título do filme e que...


Budapeste e o filme de Wes Anderson

O filme O Grande Hotel Budapeste recria signos importantes do século 20. Logo na primeira panorâmica do hotel, há uma referência nem tão sutil ao sanatório alpino d'A Montanha Mágica, obra-prima do escritor alemão Thomas Mann. O volumoso livro é descrito como “uma viagem à decadência” pelo acadêmico Malcolm Bradbury. Tampouco é casual a escolha de Budapeste para o nome do filme: há óbvias coincidências históricas no enredo, já que Budapeste foi símbolo das grandes cisões europeias por quase todo o século 20 —...


Lucy, o filme, de Luc Besson

Descoberta na Etiópia em 1974, Lucy viveu há 3.200.000 anos e é o esqueleto mais antigo de um ancestral do ser humano já encontrado. Não casualmente é o nome do filme diretor francês Luc Besson — que a gente ama desde La Femme Nikita, de 1990, e O Quinto Elemento, de 1997 — e nome da personagem da cada vez mais apaixonante Scarlett Johansson. Mas é Lucy, a Hominini, que/quem abre o filme, bebendo água em um lago num planeta bem diferente do que conhecemos hoje. Apesar de todas as nossas sofisticadas tecnologia, ciência e da...


O Grande Hotel Budapeste

A primeira coisa que chama a atenção no filme são as proporções de tela que o diretor Wes Anderson escolheu para a exibição: 4:3 (ou 1,33:1), a “janela clássica” dos filmes 35 mm para retratar as cenas que se passam nos anos 1930; 1,85:1, usada nos cinemas americanos e ingleses a partir dos anos 1960 para as cenas de 1968; e 2,35:1, a “janela panorâmica” para as cenas que se passam em 1985 (a proporção widescreen padrão que o cinema usa hoje é de 2,39:1 ou 12:5). Apesar da decisão do diretor — que eu respeito —, o...


Marilyn Monroe deslumbrante antes de sua morte

Esse é um dos últimos vídeos de Norma Jean Mortenson, aka Marilyn Monroe, num teste de cabelo, maquiagem e figurino para o filme que ela estava gravando Something's Got To Give, em 1962, que ficou incompleto com sua morte. O filme que ia ser estrelado por Monroe, Dean Martin e Cyd Charisse (as pernas mais belas do cinema), teve vários problemas. Monroe faltava às gravações, foi demitida, Dean Martin disse que só contracenaria com ela (quase foi demitido também). O negócio foi parar na Justiça com multas milionárias, Monroe foi...


Her

Nunca acreditei em livre-arbítrio. Sempre achei que nós também funcionamos por algoritmos, esse código-equação cheio de regras que determina o funcionamento de programas de computadores; apenas com variáveis mais complexas. Enquanto nos softwares as regras talvez sejam mais lógicas, o nosso algoritmo traz variáveis como a nossa personalidade, o ambiente no qual crescemos, a relação que tivemos com nossos pais, as pessoas que encontramos ao longo da vida, as experiências acumuladas, as alegrias, as tristezas, nossos desejos,...


Por que os atores da Comédie Française usam o nome da companhia de teatro como “sobrenome” quando atuam no cinema?

Por que a Comédie Française, esta instituição cultural francesa fundada por Luís 14 e Molière em 1680 e que ocupa o mesmo prédio desde 1799, é o único teatro do Estado francês, o único teatro que tem uma companhia permanente de 63 atores contratados exclusivamente, que apresentam uma média de 850 peças por temporada-ano, em três salas (Richelieu, a sala mais bonita, o Vieux-Colombier e o Studio-Théâtre), com um repertório com mais de 3 mil peças de teatro (só as peças de Molière foram encenadas 33.400 vezes, de 1680 a...


Yves Saint Laurent

O roteiro — seja pela própria história do estilista seja por histórias próximas — a gente já conhece e se repete, se repete, se repete: talento genial lidando com as grandes pressões do mundo cercado por uma entourage  de colegas talentosos, lindos, ricos, michês e arrivistas, que curtem a vida adoidado (tudo bem, nem todo mundo tem Karl Lagerfeld na sua turma). E como se já não bastassem suas fragilidades, sofre ainda mais com os excessos de aditivos como drogas e álcool. Na narração de Pierre Bergé, companheiro mão...


Ninfomaníaca Volume II

Se você assistiu ao Volume I e viu as “cenas do próximo capítulo” nos créditos finais e achou que o filme finalmente aconteceria no Volume II, sinto muito; por você e por mim. Ninfomaníaca Volume II segue denso, infantil, quase bobo em todas as análises cheias de referências eruditas e ordinárias (das fugas de Beethoven a nós de alpinismo, passando pelo Grande Cisma), mas sempre rasas e em associações nem sempre inteligíveis. A diferença é que Joe, a protagonista, que agora é mãe, passa a explorar os limites — os seus e...


Trapaça

Edward Ellington foi o maior compositor de jazz  da história. Negro numa América ainda institucionalmente racista e filho de dois pianistas, o “Duque”, como passou a ser chamado, não foi apenas um gênio musical, foi também um dos homens mais elegantes do século 20. Tinha controle total sobre sua imagem. Na sua fala sempre precisa e agradável, nunca se explicava, só se escondia. A persona que Duke Ellington criou para si e a música Jeep's Blue — que “salva” várias vezes a vida de Sydney, personagem de Amy Adams — não...


O Lobo de Wall Street

Assim como na vida real, não, o bad guy  não se ferra no final. Moralismos à parte (muitos dos familiares dos envolvidos e pessoas prejudicadas pediram boicote ao filme), os valores por trás do modo de vida de Jordan Belfort, o rapaz simples que se tornou milionário em pouco tempo vendendo ações de empresas de fundo de quintal para pessoas humildes e ignorantes prometendo um futuro — não cumprido — de riqueza e prosperidade, são a base do sistema capitalista. Dos operadores de Wall Street às letras do funk-ostentação, na...


Ninfomaníaca Volume I

A partir das cenas dos “próximos capítulos” que passa junto com os créditos finais da primeira parte (o filme tem cinco horas e meia de duração e foi dividido em duas partes, cinco capítulos na primeira, três, na segunda), Nymphomaniac Volume I não passa de uma introdução. Uma introdução profunda, repleta de interessantíssimas metáforas e paralelos sobre o sexo, em suas mais variadas etapas da vida e situações (além de inusitadas, até engraçadas, intervenções de números, gráficos e imagens que mais lembram...


Um Estranho no Lago

Atenção: esse texto contém spoilers. Um Estranho no Lago poderia se chamar La “pégation” sur l'herbe, uma alusão ao quadro O Almoço na Relva de Édouard Manet que deu início ao colorido movimento impressionista. Mas, em alguns minutos de filme, a leveza da pegação descompromissada, o naturismo sob a luz do verão e a tranquilidade da água do lago — onde homens gays  passam seus dias a nadar, tomar Sol e passear pelo bosque atrás de sexo casual —, dá lugar à tensão da perigosa atração que Franck (lindinho), o...


São Paulo em Hi-Fi

Festas nababescas. Em 1976, Wilza Carla chegou à Festa da Broadway na Medieval vestida de odalisca sobre uma elefoa. Repito: a atriz Wilza Carla, vestida de odalisca, desceu a Rua Augusta — não de carro ou ônibus ou carruagem ou cavalo, mas — em cima de um ELEFANTE para chegar a uma festa. Darby Daniel, fantasiado de Branca de Neve, era carregado por sete anões dentro de um caixão de vidro enquanto um príncipe sobre um cavalo branco o aguardava na porta da boate. Já Kaká di Polly não precisava de grandes eventos para suas...


The Bling Ring

Elas falam Balmain, Chanel, Birkin com a mesma intimidade com que elas falam de suas amigas mais próximas. The Bling Ring seria cômico se ele não fosse um filme que refletisse exatamente os valores invertidos da sociedade em que a gente vive. Principalmente da elite cool, sempre admiradora do dinheiro e do poder cujas procedências nunca são consideradas desde que a “imagem” dos poderosos du jour  e sua companhia renda boas fotos no Facebook e no Instagram, tragam influência entre os pares e sirvam aos seus interesses. (Aliás, nada...


Ferrugem e Osso

A história tinha tudo para ser contada de uma maneira piegas e beira o fantástico: o amor entre um boxeador bonitão - e garanhão - desempregado que se envolve em negócios escusos com uma treinadora de orcas que perde as pernas em seu trabalho num acidente. Mas, as cenas são lindas (inclusive as cenas cheias de violência e as cheias de amor), intensas e repletas de nuances; o filme é contado de uma maneira real, humana e delicada; Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts se consolidam como dois gigantes do cinema francês (apesar de...


A Single Man

Robes de cashmere, casas ao melhor estilo Wallpaper* (já a de Charlie lembra a casa de Frances Brody, também em Los Angeles), taças de cristal Saint Louis, guarda-roupa Tom Ford men’s wear, cigarros rosa Ben Sherman, linda papelaria. A Single Man  é tudo o que a gente poderia esperar de um filme assinado por um dos grandes nomes da moda comercial dos últimos quinze anos (e hoje uma das coisas mais interessantes na moda masculina). A história (baseada no livro homônino escrito por Christopher Isherwood, um dos primeiros romances do...


Cine Caixa Belas Artes abre em maio

O mais legal da cerimônia de anúncio ontem (28 de janeiro) foi ver que, se não fosse a mobilização dos ativistas do Movimento Cine Belas Artes, o cinema teria sido apenas mais um espaço emblemático da cidade fechado para dar lugar a uma igreja ou a uma loja (bem mais lucrativos que um cinema que se dedica a filmes não blockbusters). A galera incomodou BASTANTE todos os atores do processo durante esse tempo, promovendo a abertura do processo de tombamento, CPI, audiências, abaixo-assinados. Mas, depois de três anos (fechou em março...


Bastardos Inglórios

É Quentin Tarantino. É bom. O recorte histórico é interessante. Tem que ver. //Apesar de retratar um dos momentos mais negros e cruéis da nossa história, Inglorious Basterds é ensolarado (sua luz quente nos transporta ao Midi francês), inteligente (com texto multilíngue afiado e um interessante recorte da história da Alemanha nazista – e sim, esses judeus rebeldes que assassinavam nazistas existiram), escrachado e cínico (características do cinema tarantiniano), e ainda nos oferece a possibilidade – essa que é uma das...


A Fita Branca

Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Somos cúmplices dos personagens. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o deles. O filme...


Milk

No começo do filme chocam as cenas reais, de apenas 30 anos atrás, de homossexuais bem vestidos e extremamente constrangidos sendo presos em bares gays através das frequentes batidas policiais nos Estados Unidos da América — país em que palavras como liberdade, igualdade e democracia já fazem parte dos valores do Estado desde a Declaração da Independência, de 1776. Assim como outros filmes mais autorais e menos comerciais que fizeram o Oscar 2009, Milk leva a assinatura de Gus Van Sant, diretor gay  assumido que sempre esteve...


O ano passado, onde?

L’Année Dernière à Marienbad  (em português, O Ano Passado em Marienbad ), é um dos filmes mais incompreendidos da história do cinema, apesar de extremamente belo e poético. O filme dirigido por Alain Resnais, uma das principais figuras da nouvelle vague  (movimento do cinema francês da década de 1960 formado por jovens autores que utilizavam o cinema para transgredir as regras do cinema mais comercial, com uma visão extremamente crítica da sociedade, propondo um “novo” cinema), ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza...


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