É Quentin Tarantino. É bom. O recorte histórico é interessante. Tem que ver. //Apesar de retratar um dos momentos mais negros e cruéis da nossa história, Inglorious Basterds é ensolarado (sua luz quente nos transporta ao Midi francês), inteligente (com texto multilíngue afiado e um interessante recorte da história da Alemanha nazista – e sim, esses judeus rebeldes que assassinavam nazistas existiram), escrachado e cínico (características do cinema tarantiniano), e ainda nos oferece a possibilidade – essa que é uma das qualidades da ficção – de fazer pensar – e ver – um final que muitos de nós gostaríamos de ter visto: a queda do nazimo pela vingança do povo que sofreu suas atrocidades.

Tudo bem que esses judeus são norte-americanos (sempre eles, os justiceiros do Cinema e da História); usam tacos de baseball  para fazer justiça; Tarantino (para não perder o costume) dá seu toque western  através das fontes do letreiro e de algumas músicas (adoro, principalmente num filme que trata de assunto que não tem nada a ver); falam um inglês repugnante (aquele dos estados do Sul dos Estados Unidos) em contraste marcante com a elegância, a postura e a erudição de europeus poliglotas (com exceção dos alemães nazistas, claro). Mas Quentin Tarantino, talvez um dos símbolos-mor – e produto – dessa cultura de massa norte-americana, faz de seu Inglorious Basterds ainda mais interessante ao trazer para o filme o mundo e a estética do cinema alemão da época – o da propaganda política – e discutir a obra de Leni Riefenstahl, citar diretores alemães (engajados ou não), e, na sequência final, fazer uma referência à Veronika Voss de Fassbinder.

A sensação ao assistir ao filme é a de que Tarantino chega à maturidade. Diferente de seus filmes anteriores (exageradamente vulgares, repulsiva e explicitamente violentos, e apresentando uma forma de arte atraente mas discutível, e que sempre gera debates calorosos), Inglorious Basterds é um belo filme que favorece o roteiro, os diálogos, e em que a violência – claro que ela está lá; sempre explícita – é apenas um acessório. Definitivamente, um turning point  na carreira de Quentin Tarantino.

I know this is a silly question before I ask it, but can you Americans speak any other language besides English?” Bridget von Hammermark, atriz alemã interpretada por Diane Kruger

Outras curtas observações:
— É até engraçado ver o nome de Brad Pitt como protagonista da história. Quem leva o filme do começo ao fim é o coronel inteligente, bonachão e cínico ao extremo, Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz).
— Mike Myers, irreconhecível, faz uma ponta no filme como um alta-patente do exército britânico.
Kitsch a perder de vista a roupa da linda tradutora franco-italiana Francesca Mondino durante o almoço de Goebbels.
Elenco cheio de charmosões (Brad Pitt, Eli Roth, Michael Fassbender, Til Schweiger, Denis Menochet, Gedeon Burkhard e vários figurantes alemães).
— Linda e épica a cena final com a imagem de Shoshanna reproduzida na fumaça.
— Por que “Inglorious BastErds” ao invés de BastArds? Quentin Tarantino não explicou e disse que não vai explicar.