Há sete anos meu trabalho depende do turismo. E, depois de quatro meses sem pegar um avião, foi triste sentir que a atividade mais prazerosa dos meus 41 anos de vida agora pode representar não só um risco para mim, mas para todas as pessoas que amo e com quem convivo — que não estão viajando comigo —, se eu contrair o novo coronavírus. Na foto, chegando à Porto Seguro. Imagem: Shoichi Iwashita

Com a reativação de algumas rotas domésticas pelas companhias aéreas enquanto o Brasil ainda está na curva ascendente rumo ao pico catastrófico da pandemia (e sem uma política nacional de prevenção), fiz o primeiro voo de São Paulo para o sul da Bahia depois de o aeroporto ter permanecido fechado por 75 dias. Teve batismo da aeronave com caminhões de bombeiros, TVs locais cobrindo a chegada, funcionários felizes com a retomada.

E, a partir dessa experiência, já posso afirmar: durante uma grave crise sanitária em que dependemos do outro — do funcionário da companhia aérea, da camareira no hotel ou do passageiro na poltrona ao lado; seres humanos de pensamentos e emoções complexas — para preservar a nossa saúde e da nossa família, enquanto não houver uma vacina, definitivamente não será seguro viajar.

VOOS CHEIOS NOS JÁ APERTADOS AVIÕES DE CORREDOR ÚNICO

Os voos da tarde e da noite em uma quinta-feira-de-feriado-durante-a-pandemia no maior aeroporto da América do Sul, que costuma ter quase 300 voos domésticos em um dia comum. Imagem: Shoichi Iwashita

Como as companhias aéreas brasileiras decidiram não isolar o assento do meio nos aviões por conta dos altos custos de operação em um momento de grave crise e os pouquíssimos voos têm atendido à demanda reprimida após mais de dois meses de quarentena, grande parte dos voos têm saído cheios.

Ou seja, você vai passar uma, duas horas nos voos domésticos, compartilhando o braço da sua poltrona com um estranho, sem distanciamento social e sem a possibilidade de pagar mais por uma poltrona classe executiva com mais espaço entre pessoas. (As fronteiras de quase todos os países estão fechadas para nós, brasileiros, por tempo indeterminado; e prepare-se para uma burocracia de imigração ainda maior quando os países voltarem a nos receber).

Ao embarcar e sentar na minha poltrona — usando duas máscaras e óculos de proteção sem tirá-los ou encostar a mão no rosto desde que havia saído de casa — fiz a Naomi: com lenços umedecidos antissépticos que trouxe na mala de mão, limpei a fivela do cinto de segurança, os braços da poltrona, toda a parte de plástico à minha frente que inclui a bandeja, e até o puxador do compartimento superior de bagagem, na única vez que precisei pegar a mala de mão durante o voo (esses lenços são muito práticos também para limpar as malas e levar para o banheiro para limpar qualquer ponto de contato).

E atenção: apenas álcool em gelaté 500 ml em voos domésticos, 100 ml em voos internacionais — e lenços antissépticos são permitidos a bordo; álcool líquido é proibido no interior da aeronave (deveria ser óbvio para mim, mas sei lá por que eu estava levando um frasco pequeno na mala de mão; ao ouvir o anúncio, entreguei para a comissária descartar).

Com as portas da aeronave fechadas, só me restou rezar para que meus vizinhos — não só o da poltrona ao lado, mas também os das fileiras da frente e, principalmente, os de trás — permanecessem de máscara o tempo todo, não estivessem infectados com o novo coronavírus, não espirrassem, não tossissem durante o voo (fiquei imaginando o meu pavor se alguém tivesse uma crise de tosse perto de mim… é terrível a sensação de vulnerabilidade). Porque, além dos assintomáticos representarem 40% das infecções do novo coronavírus, no Brasil, até pessoas com febre não são impedidas de viajar {leia mais abaixo}.

SÃO INÚTEIS OS PROTOCOLOS DE SEGURANÇA SEM A CONSCIÊNCIA DE TODOS OS VIAJANTES

Não espere tampouco que seus companheiros viajantes respeitem o distanciamento de, no mínimo um metro e meio, nas filas do check-in e do embarque. O mesmo na hora de sair do avião. Em vez de seguir a recomendação da tripulação — todos sentados, saindo fileira por fileira —, todos se levantam, conversam e ainda sempre tem aquele que quer pegar a mala que deixou no compartimento-lá-longe enquanto os outros caminham na direção contrária. E me pergunto se os filtros HEPA, que as companhias aéreas têm comunicado como eficientes para a não transmissão do vírus pelo ar dentro da cabine, funcionam também quando o avião está no chão, com as portas abertas e o povo “grudado” como se estivesse no transporte público em horário de pico em alguma grande cidade do mundo.

Na esteira de bagagem, a falta de noção se repete: todo mundo aglomerado junto à esteira, em vez de manter o distanciamento recomendado e só se aproximar dela quando vir a mala… Diante da existência de um vírus invisível e altamente contagioso que pode ser mortal — ou deixar sequelas graves e irreversíveis mesmo em pessoas jovens e saudáveis —, deveria ser normal ter um comportamento consciente e responsável perante a coletividade. Mas não é. (Minha mala ficou quase dez minutos rodando; só fui pegá-la quando quase o voo todo já tinha ido embora e me senti seguro.)

SIM, VOCÊ PODE VIAJAR SEM MÁSCARA, SE QUISER

Nos Estados Unidos, confusões e até brigas têm acontecido entre passageiros com e sem máscaras. Também no Brasil, as companhias aéreas só podem recomendar o uso e não podem impedir um passageiro de entrar no aeroporto ou no avião caso ele se recuse a portar uma máscara de proteção, ou se estiver com a máscara no queixo com o nariz e a boca descobertos. Mas se a tripulação tem quase poder de polícia caso o passageiro coloque em risco a segurança do voo — tipo, não apertar os cintos ou fumar no lavatório — por que não pode impor o uso da máscara, um equipamento de segurança neste momento do mundo?

FIQUEI COM FEBRE NO DESTINO, POSSO PEGAR O VOO DE VOLTA?

O mesmo acontece se você estiver com sintomas de Covid-19. Apesar de teoricamente estarem medindo a temperatura dos passageiros — assim fui informado anteriormente pela a assessoria de imprensa do aeroporto, mas minha temperatura não foi medida em nenhum momento nem no aeroporto de origem nem no de destino —, se um passageiro estiver com febre, tampouco ele será impedido de viajar.

O protocolo diz que esse passageiro apenas receberá informações sobre os cuidados que deve tomar: se isolar por 14 dias, procurar um médico caso tenha sintomas mais importantes. E o pior: você poderá estar viajando ao lado de alguém infectado com o novo coronavírus, já com sintomas, e, ainda assim, não poderá fazer absolutamente nada em um voo cheio.

Observação: de acordo com a IATA, a Associação Internacional de Transporte Aéreo que representa 290 companhias aéreas, a ideia é de, nos voos internacionais, ter testes rápidos financiados pelos governos (que sai mais de US$ 200 por teste). Se o passageiro testar positivo, ele é impedido de voar e obrigado a arcar com todos os custos de hospedagem, remarcação de passagem e hospital até se curar. Porque, enquanto o novo coronavírus for considerado uma pandemia pela OMS, os seguros-viagem não arcam nem com os custos médicos.  

COMO CONFIAR NO TRABALHO E NA ATENÇÃO DE CENTENAS DE PESSOAS CONTRA UM VÍRUS INVISÍVEL?

Quando viajamos, perdemos totalmente o controle sobre a segurança da nossa saúde diante da ameaça de um vírus; e não são poucas as histórias e as reportagens sobre deslizes de higiene e segurança, até mesmo em estabelecimentos sofisticados. Mesmo em uma viagem de fim de semana, dependemos da companhia aérea, da empresa que prepara as refeições de bordo, do hotel, do motorista, das lojas, museus e restaurantes. Precisamos confiar no trabalho de centenas de pessoas invisíveis — muitos, bem mal remunerados — que prestam serviços para essas empresas; que não podem se esquecer de nenhum detalhe nessa operação de guerra constante contra um vírus. Apesar da comunicação de tantos novos procedimentos de limpeza comunicados por companhias aéreas, redes de hotéis e destinos, o quão consistente será a aplicação dessas medidas de higienização e manutenção dia após dia, hora após hora?

Mas também nos coloca em risco o comportamento inadequado de outros passageiros, hóspedes e clientes que estarão compartilhando conosco os mesmos ambientes. E uma vez que o vírus sobrevive até três dias em superfícies sólidas, dependeremos do comportamento de todos os que passaram por ali nas últimas 72 horas.

Para não criar aglomerações em um momento ainda grave da pandemia no Brasil — e, apesar de toda a triste dificuldade pela qual o mercado do turismo está passando — ainda não é hora de viajar a lazer; deixemos os aviões para quem realmente precisa se locomover.

E, se puder, fique em casa.

Bahia, 19 de junho de 2020.

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