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Machu Picchu de luxo: Como chegar, quanto custa, quando ir, onde ficar, como é, e a história fascinante das ruínas mais famosas (e recentes) do Peru

Às margens da Amazônia e no alto de uma montanha, próxima do deus inca máximo, o Sol, Inti, Machu Picchu é uma cidade quase impossível que nunca foi descoberta pelos invasores em mais de 300 anos do Peru como colônia espanhola. Imagem: Shoichi Iwashita

Na história milenar das civilizações andinas, a parte mais famosa desta trajetória foi apenas um relâmpago: o Império Inca durou pouco mais de cem anos, até ser dizimado pelos invasores espanhóis no século 16 (me recuso a usar a palavra conquistadores).

E, construído nos anos 1450, no auge do Império (e depois abandonado pelos incas a ponto de os espanhóis nunca terem colocado lá seus pés em 300 anos do Peru como colônia), Machu Picchu é o símbolo turístico máximo das realizações incaicas. Não por menos: essa quase impossível e extraordinária obra da engenharia e da arquitetura — que não foi concluída, mas cujos canais de água funcionam até hoje e enormes pedras parecem ter sido cortadas a laser tamanha a precisão— foi construída por um povo que desconhecia a roda, o ferro, os animais de tração, o dinheiro e a escrita (em vez de um alfabeto, os incas desenvolveram um método de registro — até hoje indecifrável — através de um conjunto de nós em fios de algodão, os quipus).

Mas cinco mil anos atrás — mesma época da construção das pirâmides do Egito, dos sumérios na Mesopotâmia, da cultura Liangzhu na China —, já existia uma civilização a 180 quilômetros ao norte de Lima, com pirâmides, templos, anfiteatros: Caral foi a primeira cidade-estado do continente americano. A sofisticação estética e moral desse império teocrático — os incas adoravam o Deus Sol, Inti — que é uma das mais fascinantes civilizações do mundo são o resultado de milênios de história de dezenas de povos andinos: dos Caral, dos Chimor, dos Huari, dos Chachapoya, dos Aymara…

Índice desta matéria:

  1. O maior império das Américas
  2. Qual era a real função de Machu Picchu? Ninguém sabe, nem o nome
  3. Uma noite, pelo menos, em Machupicchu Pueblo
  4. Como chegar a Machu Picchu e quanto custa?
  5. Qual a melhor época e horários para visitar Machu Picchu?
  6. Da estação de trem do pueblo a Machu Picchu
  7. O sagrado e o profano na visita às ruínas
  8. O que vestir e o que levar para Machu Picchu
  9. Os riscos do turismo de massa

O MAIOR IMPÉRIO DAS AMÉRICAS

As belas paisagens do Vale Sagrado dos Incas, que vai de Písac, pertinho de Cusco, até Machu Picchu, apesar de o Império Inca ter abrangido muito países. E todas as cidades confederadas ao império eram interligadas por 16 mil quilômetros de estradas, que eram superiores em qualidade às estradas romanas. Imagem: Shoichi Iwashita

Os incas criaram o maior império da América pré-colombiana. Eles conquistaram toda a parte central da Cordilheira dos Andes — do extremo sul da Colômbia ao Chile, passando pelo Equador, Peru, Bolívia e Argentina, conectados por 16.000 quilômetros de estradas — e sua história pode ser vivida em cidades e vilarejos repletos de ruínas do que é conhecido hoje como o Vale Sagrado, esse planalto irrigado por muitos rios, que se estende por 100 quilômetros. Começando por Cusco, a capital do Império Inca, a desafiadores 3.399 metros de altitude, o Valle Sagrado de los Incas vai de Písac, a 2.972 metros e apenas 40 minutos de Cusco; passa por Ollantaytambo, a 2.700 metros, e Chinchero, a 3.762 metros!; até chegar a Machu Picchu, a 2.430 metros acima do nível do mar (para efeitos de comparação, São Paulo está a 760 metros, e o Rio, a 20 metros). E o melhor: toda essa região conta com excelente infraestrutura turística para viajantes sofisticados.

QUAL ERA A REAL FUNÇÃO DE MACHU PICCHU? NINGUÉM SABE, NEM O NOME

Ao fundo de Machu Picchu, fica a icônica Huayna Picchu, a “montanha nova”, que pode ser escalada comprando um ingresso especial. Imagem: Shoichi Iwashita

Nas construções que abrigavam a aristocracia inca, as pedras eram polidas e encaixadas tão perfeitamente que, apesar de não haver cimento ou argamassa, não passa uma folha de papel entre elas (mas muitas paredes foram reconstruídas depois da descoberta de Machu Picchu, em 1911). Imagem: Shoichi Iwashita

Um mar de montanhas: vista de tirar o fôlego. Imagem: Shoichi Iwashita

Ninguém sabe como se chamava o que conhecemos hoje como Machu Picchu quando os incas construíram essa cidade aristocrática no século 15, no topo de uma montanha rodeada pelo Rio Urubamba, às margens da Floresta Amazônica e à beira de vertiginosos penhascos; Machu Picchu, a “montanha velha”, e a icônica Huayna Picchu, a “montanha nova”, estão rodeadas de um mar de “arranha-céus” verdes a perder de vista. O nome só seria dado em 1911 por Hiram Bingham, o explorador estadunidense que “descobriu”, roubou e divulgou para o mundo as ruínas (outros exploradores haviam estado lá anteriormente, mas sem a publicidade de Hiram, patrocinado pela Universidade de Yale e pela National Geographic Society).

Ninguém sabe tampouco qual era a função de Machu Picchu. Já foram descartadas as ideias de que a cidade era uma fortaleza ou cidadela — já que, apesar das oito entradas, nunca existiu um sistema de defesa — e pesquisadores trabalham com as hipóteses de que Machu Picchu tenha sido um santuário, uma residência de descanso para Pachacutec, o Inca que reinou entre 1438 e 1471 e foi responsável pela expansão do império Tahuantinsuyu (o nome do império inca em quechua), ou ainda ambas as coisas, em momentos diferentes.

UMA NOITE, PELO MENOS, EM MACHUPICCHU PUEBLO

É de Machupicchu Pueblo que partem os ônibus para as ruínas de Machu Picchu, a três quilômetros de distância. É uma cidade bem pequena, bem simples, mas que conta com um hotel de luxo, o Sumaq (o Belmond fica na entrada do parque nacional, montanha acima), e é atendida por trens de todas as categorias. Imagem: Shoichi Iwashita

O Sumaq é o único hotel de luxo em Machupicchu Pueblo e fica de frente ao rio já no caminho que leva a Machu Picchu. Imagem: Shoichi Iwashita

Todo o conforto nos quartos espaçosos e excelente gastronomia local no hotel Sumaq. Imagem: Shoichi Iwashita

Tirando o hotel Belmond que fica na entrada do parque, não há mais nada lá no alto da montanha. A cidade mais próxima das ruínas — e acessível apenas em trem ou a pé, pela Trilha Inca, que dura quatro dias — é a pequenina Machupicchu Pueblo, cortada pelo Rio Urubamba, conhecida também pelo nome não-mais-oficial de Aguas Calientes, que está a três quilômetros de distância de uma estrada-cheia-de-curvas-fechadíssimas e ladeira abaixo, com 400 metros a menos de altitude.

Como a viagem de trem entre Cusco e Machupicchu Pueblo dura 4h30 (sem contar o tempo de sair do hotel e ir para a estação de trem) e você ainda vai gastar mais uma hora entre descer do trem, pegar as malas e a fila para o trajeto de 30 minutos de ônibus para subir para Machu Picchu, não é nada recomendável vir e voltar de Cusco no mesmo dia: passe pelo menos uma noite no pueblo para ter uma experiência mais contemplativa, menos cansativa; e por que não vistar Machu Picchu duas vezes em horários diferentes? {Confira a crítica sobre a minha experiência de hospedagem no hotel Sumaq, o melhor hotel de Machupicchu Pueblo, clicando aqui.}

COMO CHEGAR A MACHU PICCHU E QUANTO CUSTA?

A estação San Pedro de trem, de onde partem os trens da Inca Rail com destino a Ollantaytambo e Machupicchu Pueblo. Imagem: Shoichi Iwashita

O trem da Inca Rail que conta com a Primeira Classe parte de Cusco às 8h30 e chega à Machu Picchu às 12h50. Imagem: Shoichi Iwashita

Encontrar a saída da estação de trem de Machupicchu Pueblo é um desafio. Existe um labirinto de lojas entre o sair do trem e a rua. Imagem: Shoichi Iwashita

É caro ir a Machu Picchu, já que é uma viagem que envolve avião, trem, ônibus, carro, hospedagem, refeições e ingressos, e é como um mini-quebra-cabeças que precisa ser planejado previamente; ainda mais se você quiser visitá-la na altíssima temporada que abrange as férias de julho e agosto, para as quais é aconselhável reservar e comprar tudo com três meses de antecedência (na baixa temporada, dá para comprar os ingressos para Machu Picchu de um dia para o outro, sem problemas). De quatro a seis mil pessoas — distribuídas em nove horários de entrada, entre 6h e 14h — são permitidas diariamente em Machu Picchu; mas só 400 podem escalar o Wayna Picchu e também visitar as ruínas.

Abaixo está a lista completa das coisas que você precisa já ter planejado e comprado antes de sair do Brasil para passar uma-noite-e-dois-dias em Machupicchu Pueblo e visitar as ruínas de Machu Picchu:

  1. Bilhetes de trem entre Cusco e Machupicchu Pueblo: calcule a partir de US$ 340 no 360° e US$ 500 na Primeira Classe da Inca Rail, ida e volta, por pessoa {saiba como foi viajar nessas duas classes, clicando aqui}, mas, se você pegar uma promoção — bem comum —, esse valor pode incluir já o ingresso para Machu Picchu, o transporte entre Machupicchu Pueblo até as ruínas, e ainda o guia, ou seja, os itens 3, 4 e 5 abaixo, com todos os horários encaixadinhos (o trem mais em conta custa a partir de US$ 150 para a passagem ida e volta);
  2. Reserva de uma noite de hotel em Machupicchu Pueblo: calcule a partir de US$ 600 por noite, para duas pessoas, em sistema de meia pensão com deliciosos café da manhã e jantar incluídos no hotel Sumaq;
  3. Ingressos para Machu Picchu comprados online, já com o dia e o horário agendados: calcule US$ 45 o ingresso para cidadãos brasileiros só para as ruínas (o preço cobrado pelo Ministério da Cultura peruano varia de acordo com a nacionalidade), e tenha obrigatoriamente no dia da visita o ingresso impresso com o nome conforme seu documento, o passaporte original (que você vai poder carimbar com o desenho de Machu Picchu, se quiser) e o cartão de crédito com o qual você fez a compra do ingresso em mãos (tem ainda dois outros tipos de ingresso para os aventureiros que gostam de fazer trilhas montanha acima tanto na montanha de Machu Picchu quanto na vizinha — e muito íngreme — Huayna Picchu);
  4. O trajeto de ônibus entre Machupicchu Pueblo e Machu Picchu de acordo com o horário que você escolheu para visitar as ruínas: calcule US$ 24, ida e volta, tenha o bilhete impresso e chegue à fila do ônibus uma hora antes do horário da sua visita, que já é organizada por horário e, apesar das filas longas, anda rápido (o primeiro ônibus parte às 5h30 para as pessoas que tiverem comprado a visita para as 6h da manhã);
  5. Desde 2019, existe uma determinação para a contratação obrigatória de guia para entrar em Machu Picchu, mas, apesar de não haver fiscalização para o cumprimento da regra (ninguém confere se você está com um guia para entrar), é sempre bom ter alguém junto para contar a história, explicar as construções, esclarecer dúvidas. Os guias ficam na entrada de Machu Picchu (calcule US$ 50 para uma visita de duas horas e meia), mas o ideal é solicitar um bom guia para o concierge do hotel. O hotel Sumaq, por exemplo, oferece a possibilidade de uma visita à Machu Picchu na companhia de um guia e de um xamã, que é um jeito incrível de se conectar com a energia da Pachamama em Machu Picchu.
  6. Ah, e leve moedas locais para usar o banheiro antes de entrar em Machu Picchu: pode-se ficar até quatro horas lá dentro, mas lá não tem banheiro. E se você sair, não entra mais. O uso do banheiro custa dois soles peruanos (R$ 3).

QUAL A MELHOR ÉPOCA E HORÁRIO PARA VISITAR MACHU PICCHU?

A cidade de Machu Picchu está dividida entre a área urbana e agrícola, representada por esses terraços onde os incas plantavam milho, batatas, tomate, quinoa. Imagem: Shoichi Iwashita

Uma vez que Machu Picchu abre das 6h às 17h, com última entrada às 14h, não dá para ver pôr do sol lá de cima; já o nascer do sol talvez seja possível no mês julho quando o astro nasce por volta das 6h10, 6h15. E, uma vez que você pode ficar até quatro horas em Machu Picchu, opte por ir no primeiro ou no último horário para pegar a luz mais bonita. Só tenha em mente que no início do dia geralmente tem muitas nuvens lá em cima

Se você quiser fazer a trilha pela montanha, suba com ônibus, aproveite suas horas em Machu Picchu e desça a pé (é quase uma hora e meia de subida e os degraus não são regulares; se você não tiver preparo físico, vai chegar lá suado e já cansado). Aí, compre apenas um trecho de ida da passagem. Se você desistir e quiser descer de ônibus, é só pagar os US$ 12 lá em cima, na saída de Machu Picchu.

O Peru tem uma temporada seca e outra de chuvas (fortes, tropicais). Por isso, prefira ir na seca entre maio e outubro, com exceção de julho e agosto, que é altíssima temporada por conta das férias escolares e férias europeias, e tudo fica apinhado de gente. Ou seja, vá em maio ou junho ou setembro ou outubro.

DA ESTAÇÃO DE TREM A MACHU PICCHU

Saindo da estação de trem (quando você encontrar a saída), basta atravessar a ponte sobre o Rio Urubamba e você já estará na Avenida Hermanos Ayar, onde ficam as filas e os ônibus que levam a Machu Picchu. Basta entrar na fila do horário marcado no seu ingresso. Imagem: Shoichi Iwashita

A saída dos ônibus para Machu Picchu está na Avenida Hermanos Ayar, a única avenida do pueblo, a 220 metros da estação de trem de saída labiríntica por onde você vai chegar. Os ônibus ficam organizados de acordo com os horários da visita à Machu Picchu definido no seu ingresso. E não tem como pegar um ônibus anterior, porque você só consegue entrar no parque no horário marcado ou depois; antes, nunca.

Os ônibus te deixam bem na entrada do parque nacional, onde também ficam os banheiros (não se esqueça de usá-los antes de entrar em Machu Picchu porque não existe contemplação quando se está apertado, e tenha dinheiro trocado). Na saída, a fila para os ônibus de volta é uma só, é longa, mas anda rapidamente.

O SAGRADO E O PROFANO NA VISITA ÀS RUÍNAS

O ouro e a prata abundantes na América não tinham valor econômico para os incas, mas representavam suas maiores divindades: o Sol e a Lua (o Templo do Sol na capital Cusco era inteiramente recoberto de ouro, por dentro e por fora, com uma suntuosidade que nem os espanhóis acreditaram quando viram). No meio da selva e próximo do céu, como no topo de uma catedral, e, segundo os locais “alinhado com os cumes das montanhas circundantes e constelações cósmicas”, aproveite não só o ar puro mas também a energia desse que é um dos mais importantes lugares da religiosidade andina; e é uma grande pena que, em nome do turismo, o governo não permita a celebração dos seus rituais. É um pouco difícil se conectar em meio à vulgaridade dos muitos turistas falando alto e fazendo poses para fotos, por isso procure pelos cantinhos vazios e silenciosos ao longo do percurso (tem alguns), e se permita parar e apenas contemplar. Tem alguma coisa aqui que é difícil de explicar.

O QUE VESTIR E LEVAR PARA MACHU PICCHU

Como o terreno é acidentado, é sempre bom ter os dois braços livres para se apoiar, em caso de necessidade. Por isso, vá com uma mochila. Aí, é preciso pensar que, dentro do parque, você não vai ter nada para comprar. Assim, leve sua garrafa de água cheia e algo leve como uma fruta ou uma barra de cereal ou proteína (é proibido comer lá dentro, mas desde que você seja discreto e não deixe nenhum lixo nas ruínas, não é impossível).

No corpo, use tênis confortáveis e bem presos aos pés (botas de trilha são uma opção), uma calça leve que não impeça seus movimentos, uma camiseta e uma malha, caso houver um vento que deixe o tempo mais fresco, além de óculos escuros, boné e protetor solar.

Foi a primeira vez na vida que um pernilongo me mordeu e saiu sangue. O xamã me disse que os mosquitos em Machu Picchu limpam o corpo, é a Pachamama em ação. Assim, eu deixei me picarem. Se você for alérgico, use repelente.

OS RISCOS DO TURISMO DE MASSA

Machu Picchu é a Mona Lisa do Peru. Apesar do acesso difícil, uma média de quatro mil pessoas — chega a 6.000 na alta temporada, apesar da recomendação da Unesco de 2.500 pessoas — visitam as ruínas diariamente, totalizando mais de 1,5 milhão de pessoas todos os anos. O governo peruano já foi notificado dos riscos ao patrimônio pela organização, mas a tendência é haver um aumento considerado insustentável no número de visistantes, uma vez que o governo peruano aprovou a construção de um aeroporto no Vale Sagrado, o que vai facilitar o acesso dos turistas a Machu Picchu.

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Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, Shoichi Iwashita se dedica a compartilhar seu repertório através das matérias que escreve para a Simonde e revistas como Robb Report Brasil, TOP Destinos, The Traveller, Luxury Travel e Unquiet.

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