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  Das Weisse Band 

  Por Shoichi Iwashita

  Data: 23/2/2010

Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o dos personagens.

O filme é lento, escuro, apesar da esplêndida fotografia e da força dos personagens infantis (o casting envolveu mais de sete mil crianças). Klara, Martin, Eva e Anna são os destaques, assim como o figurino e a elegância da Baronin.

A beleza é reforçada pelas imagens em preto-e-branco (o diretor quis acessar nossa memória coletiva formada pelas fotografias da época). O clima é denso, não há trilha sonora (a não ser algumas músicas tocadas pelos personagens), e o tema do filme é a punição: a educação através do castigo, sem culpa ou remorso, em nome da ordem, da moral e da disciplina. Cada um pune – educa, manipula – da maneira que pode. E sendo as crianças os adultos de amanhã e os adultos as crianças de ontem, no fim das contas, quem são as vítimas?

É exatamente aí – nas discussões e especulações fora das telas – que A Fita Branca se torna realmente interessante (claro, o filme também impressiona pela maneira com a qual o diretor conseguiu traduzir a alma germânica em algumas cenas).

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2009), de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2010) e favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Das Weisse Band, num primeiro momento, trouxe à tona a questão da sociedade e dos valores que deram origem à Alemanha nazista (alguns comentaristas até chegaram a fazer uma alusão das fitas brancas que o pai amarra nos seus filhos mais velhos à marcação feita nos judeus nos campos de concentração). 

Mas, logo depois, Herr Haneke, em duas entrevistas (à Folha de São Paulo e à New Yorker), esclareceu suas motivações. Abaixo reproduzo – numa colagem e em tradução livre – suas palavras:

“Quis tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Quis mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer ideia se torna perversa se tem o autoritarismo como ponto de partida. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os muçulmanos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, de se vingar, de se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma ideia bonita você pode virar um assassino.

Mas que as crianças podem ser cruéis, ardilosas e dissimuladas, ah, elas podem. Não é mesmo, Klara?

A Fita Branca / Das Weisse Band / The White Ribbon / Le Ruban Blanc
Alemanha, Áustria, França, Itália, 2009, 144 minutos
De Michael Haneke

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