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  Avatar 

  Por Shoichi Iwashita

  Data: 18/1/2010

Me parece bastante ingênuo da parte de pessoas cheias de opinião esperar um grande roteiro de Avatar, de James Cameron. Ainda mais quando o objetivo do filme é apenas entregar ao grande público o que ele mais quer: entretenimento. E dos bons, diga-se de passagem. É muito simples: quando se quer filme com “roteiro” é preciso procurar outros diretores e roteiristas, isn’t it?

Imagine que estamos em 2154, de partida para Pandora, planeta habitado por seres grandes, longilíneos, azuis e profundamente conectados à natureza, com o objetivo de explorar – na nossa infinita ganância capitalista – Unobtanium, um mineral que pode salvar a Terra de sua crise energética. Jake Sully, um ex-fuzileiro naval que hoje está numa cadeira de rodas, vai sair de seu corpo e habitar um corpo Na’vi (no melhor estilo Second Life meets Quero Ser John Malkovitch meets Bhagavata Purana). Pronto. Coloque seus óculos 3D e deixe-se levar pelas paisagens e criaturas de tirar o fôlego de Avatar.

Apesar de as críticas – sempre elas – enfatizarem a falta de originalidade do roteiro (tudo bem, e eu concordo plenamente); ressaltarem as conexões óbvias com a atualidade como falta de criatividade (a queda do World Trade Center, a invasão do Iraque, a guerra contra o terror, a valorização da natureza etc.); desdenharem da ideia heroica de que os fracos com coragem podem vencer os mais fortes (tudo bem que no filme eles contam com uma ajudinha da natureza; o  que parece piegas num primeiro instante, mas, peraí!, não foi assim que Elizabeth I, a bastarda protestante, livrou a Inglaterra do domínio espanhol?); e, claro, a sempre presente história de amor, o filme de James Cameron – depois de um hiato de 10 anos; desde Titanic – entretém e consegue, através da extrema beleza dos cenários naturais, provocar algumas reflexões. Como, por exemplo, o distanciamento no uso dos nossos sentidos e da nossa sensibilidade nos dias de hoje – quando tudo é razão, informação e velocidade; a nossa falta de contato com esse ser em si que é a Natureza (que não julga; onde o bem e o mal, o certo e o errado, e a moral não existem; that doesn’t take sides and only protects the balance of life, como diz Neytiri, uma Na’vi); e o respeito aos animais e à vida (as cenas em que eles matam os animais e depois fazem um tipo de oração me fez lembrar a reverência aos alimentos de um restaurante em Tóquio que, antes de trazer o prato, traz o animal morto à vista dos comensais para que possamos agradecer a vida daquele animal que foi tirada com o objetivo de satisfazer os nossos corpos e espíritos).    

Sem falar na questão do Avatar em si, que é sempre interessante. Vivemos na era Avatar. Vivemos em épocas em que, muitas vezes, nos relacionamos com pessoas através de um meio (quero dizer, a Internet) que permite a edição de quem somos. Assim como Vishnu e Fernando Pessoa, criamos os nossos avatares no mundo virtual e as nossas personas sociais na vida real. E nos relacionamos com avatares e com as personas de cada um (e olha que tem gente que tem mais de um rsrs). E, aí, chega um momento, assim como quando acontece com Jake, em que o real e a ficção se superpõem e já não sabemos mais quem é o quê... (Como naquele conto em que um sábio chinês, ao sonhar em ser uma borboleta, se pergunta se ele era um homem que sonhara em ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando em ser um homem). E haja terapia.

Devaneios à parte, Avatar 3D é um grande filme que já uma das maiores bilheterias da história do cinema (US$ 1 bi em duas semanas de exibição) e, com certeza, será um benchmark para os próximos blockbusters que virão.

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